Fernando Rodrigues
Coluna
Fernando Rodrigues

Diretor da Rural, Rodrigues iniciou sua trajetória profissional no mercado financeiro, atuando com gestão de risco de commodities e migrou para a construção de um ecossistema voltado à inovação no campo. Fala sobre tecnologia e inovação.

Digitalizar processo antigo não é inovação. É desperdício.

O agro brasileiro produz em escala de primeiro mundo e toma decisão com infraestrutura de dados de terceiro mundo.

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Em maio de 2026, a URUS, uma das maiores empresas globais de genética para pecuária, anunciou a aquisição da AgriWebb, plataforma australiana de gestão de dados presente em mais de 10 mil fazendas, cobrindo 23 milhões de cabeças em 26 países. O fechamento está previsto para o terceiro trimestre de 2026, sujeito às aprovações regulatórias.

Para quem acompanha o setor de longe, a notícia poderia parecer apenas mais uma consolidação de mercado. Não é.

A URUS não comprou um software. Comprou a infraestrutura de decisão de uma parte significativa da pecuária global. Quando manejo, genética, nutrição, sanidade, sustentabilidade e cadeia de suprimentos começam a conversar dentro do mesmo sistema, o dado deixa de ser relatório e passa a ser o próprio ativo operacional. É exatamente aí que está o ponto que o agro brasileiro ainda não resolveu.

O problema não é o Excel. É o que está dentro dele.
Por décadas, o agro construiu sua inteligência em planilhas. Camadas de lógica, fórmulas, macros, versões enviadas por e-mail, decisões guardadas no computador de um agrônomo, de um gestor ou de alguém que conhece a fazenda como poucos. Isso não era atraso. Era o melhor disponível.

O erro acontece quando a empresa pega esse mesmo fluxo e simplesmente o transforma em software. A planilha vira plataforma. O e-mail vira workflow. O processo manual vira processo automatizado. Mas a lógica continua a mesma. Tecnologia, nesse caso, vira tinta nova em parede velha.

O painel de 1970 em uma estrada de 120 km/h

Em 1970, o Jeep tinha o painel que precisava ter. As estradas não permitiam mais que 60 km/h, e o motor também não entregava muito mais do que isso. Aquele instrumento simples era suficiente para aquela realidade. Não havia defasagem. Havia alinhamento.

O que não se pode ter hoje é esse mesmo painel numa estrada de 120 km/h, onde freio, estabilidade e sensores precisam estar 100% calibrados para manter o carro na curva com segurança.

O agro brasileiro acelerou. A escala das operações cresceu. A volatilidade aumentou. O clima ficou mais imprevisível. A pressão por rastreabilidade avançou. O custo do capital subiu. A complexidade da gestão explodiu.

Mas em muitas fazendas e empresas, o painel não acompanhou. E dirigir a 120 km/h com instrumentos defasados não é tradição. É risco.Isso não é novo. E a história pode provar.

Toda vez que a agricultura conseguiu tirar conhecimento da cabeça de poucos e colocá-lo em sistemas acessíveis a muitos, a produção deu um salto. Não é tendência de 2026. É um padrão com milhares de anos de evidência.

Egito 5.000 A.C. — o calendário como tecnologia

Os egípcios tinham um problema: saber quando plantar dependia de décadas de observação e da memória de poucos. A solução veio ao observar que o surgimento da estrela Sírius no horizonte coincidia sempre com o início das inundações. Criaram o calendário solar, não para controlar o Nilo, mas para antecipar o que ele faria e organizar a decisão antes que a água chegasse. O que antes exigia um ancião com 40 anos de campo passou a estar disponível para qualquer produtor que soubesse ler o calendário. O agro escalou porque tirou o conhecimento da cabeça de uma pessoa e colocou num sistema.

Suméria, 3.200 A.C. — a escrita como primeiro sistema de gestão 

Os primeiros textos escritos conhecidos pela humanidade não são poemas nem leis. São listas de contabilidade de grãos e animais em tábuas de argila. A escrita não foi inventada para a literatura. Foi inventada para tirar o achismo da gestão e tornar a decisão escalável e auditável.

Séculos XIX–XX — o almanaque como infraestrutura 

Por gerações, o conhecimento agrícola ficou preso na experiência de quem tinha mais anos de campo. O almanaque quebrou essa dependência: reuniu previsões climáticas, tabelas de plantio, ciclos lunares e recomendações técnicas num único volume acessível a qualquer produtor. Era a nossa nuvem, feita de papel.

O padrão é o mesmo nos três casos: dado organizado reduz dependência de memória, feeling e intermediação. A diferença é que, desta vez, o ciclo que antes levava séculos está acontecendo em menos de uma década. E quem não está construindo a camada de infraestrutura de dados agora, vai operar sobre a camada de inteligência de outro.

Quando o dado vira infraestrutura

A aquisição da AgriWebb pela URUS confirma essa transição em escala global: a pecuária está deixando de tratar dado como relatório e passando a tratá-lo como infraestrutura crítica. Cada informação coletada melhora a próxima decisão. Cada decisão gera novo dado. E cada novo dado torna o sistema mais inteligente.

No Brasil, parte relevante do debate ainda está na camada anterior. Discutimos adoção de tecnologia enquanto empresas globais já estão consolidando a camada de inteligência que vai operar sobre dados que muitos produtores brasileiros ainda nem sabem que estão gerando. A McKinsey estimou, em outubro de 2024, que apenas 30% dos produtores brasileiros adotaram hardware de agricultura de precisão, metade da taxa americana. Mas o dado mais importante não é o percentual de adoção. É o que acontece com os dados de quem já adotou.

Eles estão integrados? Alimentam uma decisão? Reduzem uma etapa? Antecipam um risco? Melhoram uma margem? Ou apenas viraram mais uma tela para alguém consultar antes de voltar para a planilha?
Essa é a diferença entre digitalização e transformação. Digitalizar é colocar uma tecnologia sobre o processo antigo. Transformar é perguntar quais etapas deixam de existir quando a tecnologia passa a funcionar de verdade.

Cortar etapas, não apenas digitalizá-las

Pense numa operação de soja no Cerrado com monitoramento de solo, clima, máquinas, imagens de satélite e recomendação agronômica. Sem integração, esses dados existem, mas vivem separados. Um sistema mostra o clima. Outro mostra o mapa de aplicação. Outro registra a operação da máquina. Outro guarda a recomendação técnica. Outro consolida o custo.

A decisão de quando e quanto aplicar insumo ainda passa por uma reunião, uma planilha, uma ligação para o agrônomo e uma troca de mensagens no WhatsApp. O dado está lá. A etapa humana de intermediação, também.

E é exatamente essa etapa, não o sensor, não o satélite, não o software isolado, que ainda consome tempo, gera erro e não escala. A tecnologia não eliminou a decisão. Apenas digitalizou o caminho até ela.

A virada real acontece quando o sistema toma a decisão porque o dado já é suficiente para isso, e o agrônomo passa a atuar onde a complexidade ainda exige julgamento humano. Menos etapas entre o dado e a ação. Mais inteligência humana onde ela realmente importa.

Quando a tecnologia amadurece, ela deixa de ser percebida como tecnologia e passa a ser infraestrutura. Ninguém 'usa eletricidade'. As pessoas usam equipamentos que precisam da energia. No agro, a tecnologia só terá impacto real quando deixar de ser uma camada adicional e passar a fazer parte natural da operação.

A safra de dados que ninguém está colhendo O agronegócio brasileiro é um dos mais produtivos do mundo. Mas ainda desperdiça uma parte enorme da sua inteligência operacional, não por falta de dado, mas por falta de estrutura para transformar dado em decisão.

A próxima fronteira não será apenas produzir mais soja, mais milho, mais carne ou mais fibra. Será produzir melhores decisões. A diferença entre empresas que vão liderar e empresas que vão apenas gastar dinheiro com tecnologia é simples: as primeiras usarão tecnologia para redesenhar processos. As segundas usarão tecnologia para proteger processos antigos com uma embalagem moderna.
No próximo ciclo, vantagem competitiva não será de quem tiver mais tecnologia. Será de quem tiver menos etapas inúteis entre o dado e a decisão.