Fernando Rodrigues
Coluna
Fernando Rodrigues

Diretor da Rural, Rodrigues iniciou sua trajetória profissional no mercado financeiro, atuando com gestão de risco de commodities e migrou para a construção de um ecossistema voltado à inovação no campo. Fala sobre tecnologia e inovação.

Escala sem consistência não é crescimento. É aceleração do problema.

Presença de grandes players no captable de startups do agronegócio converte relacionamento em validação e confiança

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Imagine o time de vendas de uma startup entrando na segunda reunião com um grande produtor de Mato Grosso ainda precisando provar que a solução funciona. Antes de discutir prazo de implantação ou governança, o cliente ainda está em “mas isso realmente funciona na minha operação?”.

Essa empresa perdeu a batalha antes de começar, não por falta de tecnologia, mas por falta de histórico.

É nesse ponto que o captable deixa de ser estrutura financeira e passa a ser ativo comercial. Investidores estratégicos com presença junto a produtores, cooperativas e corporações do agronegócio encurtam um caminho que levaria anos no esforço comercial puro. Eles convertem relacionamento em validação, validação em uso real, e uso real em confiança, o ativo mais difícil de construir e o mais difícil de copiar. Vivemos isso na prática.

Quando conheci a BemAgro, o que me chamou a atenção foi a determinação dos sócios e a capacidade de execução. Mas antes de aprovar o investimento, fizemos o teste da tecnologia na fazenda de um dos nossos próprios sócios. A validação dele foi o que nos deu convicção para avançar.

A partir daquele momento, a BemAgro passaria a contar com Atvos, CNH, Rural Ventures e Suzano em seu captable, empresas que trouxeram robustez estratégica, credibilidade de mercado e relacionamento com o setor que nenhuma campanha comercial compraria.

Dois anos depois, na rodada Série A de R$ 30 milhões anunciada no início de 2026, realizamos uma saída parcial com retorno integral do capital investido.

Seguimos sócios e parceiros, confiantes no potencial de longo prazo da companhia. Esse é o tipo de resultado que um captable bem escolhido, com investidores que testam antes de assinar e abrem portas que o time comercial não conseguiria sozinho, ajuda a construir.

Crescer no agronegócio não é vender mais. É entregar o mesmo nível de qualidade em diferentes realidades produtivas, sob variações de clima, solo, mão de obra, logística e conectividade. Nesse contexto, escala não é volume, é fator estrutural. E estrutural significa que muda as regras do jogo para quem consegue sustentar.

A seguir, cinco efeitos que a escala destrava em empresas de tecnologia para o agronegócio, além da diluição clássica de custos fixos.

  1. ​Confiança deixa de ser promessa e vira histórico. Quando a empresa acumula ciclos completos de uso em diferentes perfis de produtores e regiões, a conversa comercial muda de natureza. O cliente para de perguntar se funciona e começa a discutir prazos, requisitos e governança. O que sustenta essa mudança não é um caso isolado, é um padrão verificável, com indicadores e depoimentos operacionais comparáveis ao longo do tempo.
  2. O cliente vira canal. O agronegócio opera por influência entre pares. Segundo o estudo global da McKinsey sobre o comportamento do agricultor, 64% dos produtores recorrem a amigos, colegas e familiares nas suas decisões de compra, mesmo quando utilizam canais digitais para pesquisa.  AgTechs com histórico consistente e clientes satisfeitos transformam esse comportamento em vantagem competitiva estrutural.

  3. Integração deixa de ser projeto e vira produto Uma integração customizada pode consumir semanas de um desenvolvedor sênior, criar dependência de configurações não documentadas e gerar um ponto de falha que só aparece durante a safra, o pior momento possível. Quando isso se multiplica por dezenas de clientes, o time técnico para de evoluir o produto e vira suporte permanente.

  4. O preço se desloca de custo para alavanca de resultado Empresas que escalam com consistência precificam com base no valor entregue, não no custo do produto. O problema é que demonstrar esse valor no campo é genuinamente difícil. Segundo a McKinsey, 30% dos agricultores globais citam ROI pouco claro como a principal barreira de adoção, e o retorno mínimo esperado para considerar uma compra é de 3 para 1. Ou seja, o agricultor precisa enxergar R$ 3 de retorno para cada R$ 1 investido antes de tomar qualquer decisão.

  5. Escala com qualidade melhora o capital que você atrai, e sua capacidade de sobreviver ao ciclo ruim O agronegócio é cíclico por natureza. Preços, crédito, custos e clima variam e testam empresas em momentos distintos. AgTechs que demonstram retenção consistente, expansão dentro da base e estabilidade operacional atraem capital mais paciente e em melhores condições.

A pergunta que importa

Antes de buscar mais produtividade ou mais vendas, vale uma pergunta honesta: sua operação já produz padrão suficiente para que o cliente confie antes de você chegar?

Se a resposta ainda depende de demonstrações personalizadas e casos isolados, o próximo passo não é crescer, é estruturar o que já funciona. Porque no agronegócio, escala sem consistência não é crescimento. É aceleração do problema.