Fernando Rodrigues
Coluna
Fernando Rodrigues

Diretor da Rural, Rodrigues iniciou sua trajetória profissional no mercado financeiro, atuando com gestão de risco de commodities e migrou para a construção de um ecossistema voltado à inovação no campo. Fala sobre tecnologia e inovação.

No agronegócio global, inventar deixou de ser suficiente

Quando a inteligência artificial reduz o custo de reproduzir tecnologia, a vantagem competitiva muda de lugar

Em março de 2025, a aceleradora americana Y Combinator informou que, em aproximadamente um quarto das startups de sua safra, 95% do código havia sido escrito por inteligência artificial. Eram empresas apresentando seus negócios a investidores, muitas já com receita. O que antes exigia equipes maiores de engenharia e investimentos consideráveis pode, em determinadas aplicações, ser construído por poucas pessoas em uma fração do tempo.

O mundo está virando uma grande China. Não no sentido de que ninguém mais inventa, mas de que inventar deixou de ser suficiente para garantir uma vantagem duradoura. Durante décadas, a indústria chinesa demonstrou uma capacidade rara de observar, reproduzir, adaptar e aperfeiçoar produtos, combinando aprendizado rápido com escala industrial.

Hoje, além de fabricar, a China desenvolve suas próprias tecnologias e disputa a liderança em diferentes setores. A inteligência artificial está permitindo que muito mais empresas participem desse mesmo jogo: aprender rapidamente, reduzir custos, melhorar produtos e ganhar escala. A questão já não é apenas quem inventa primeiro, mas quem consegue evoluir mais rápido.

O custo de copiar está caindo

Patentes, conhecimento técnico, processos industriais e sistemas complexos continuam sendo barreiras reais. Mas uma parcela crescente das funcionalidades que diferenciavam produtos digitais está ficando fácil de reproduzir.

Construir uma aplicação, porém, não é o mesmo que operar um negócio confiável, integrado e escalável. A barreira competitiva não desaparece. Ela se desloca para o que continua difícil de construir: distribuição, execução, confiança e conhecimento acumulado sobre o cliente.

O iFood ajuda a entender esse deslocamento. Segundo a empresa, a plataforma conecta 65 milhões de consumidores, 500 mil estabelecimentos e 600 mil entregadores, com mais de 180 milhões de pedidos por mês. É possível desenvolver outro aplicativo de delivery; o difícil é reconstruir essa rede.

Mas a vantagem não está só no tamanho. Está em ter construído uma rede difícil de reproduzir e em transformar essa escala em uma operação cada vez mais eficiente.

Dos R$ 24 bilhões que a empresa diz investir no ciclo atual, parte vai para tecnologia própria e inteligência artificial aplicada aos processos, não para a tela. Um concorrente reproduz a interface e subsidia entregas.

Não copia o histórico de milhões de transações, a densidade logística construída cidade a cidade e as relações comerciais que sustentam a operação.

O aplicativo sempre foi apenas a porta. O negócio está no que foi construído atrás dela.

No agro, a vantagem já estava no relacionamento

O agronegócio brasileiro construiu, ao longo de décadas, uma infraestrutura comercial que nenhuma ferramenta digital consegue reproduzir rapidamente: cooperativas, revendas, distribuidores, agrônomos e prestadores de serviços que conhecem o produtor, acompanham suas operações e participam das decisões a cada safra.

Segundo o Anuário 2026 do Sistema OCB, o Brasil possui 1.254 cooperativas agropecuárias, que reúnem 1,13 milhão de cooperados e movimentaram R$ 487 bilhões em 2025. É uma rede que combina assistência técnica, financiamento, fornecimento de insumos e comercialização da produção.

Existe um motivo para essa estrutura ter atravessado tantas ondas de tecnologia. No campo, o produtor não compra apenas um produto. Compra também a confiança de que ele vai chegar no momento certo, funcionar nas condições da propriedade e contribuir para o resultado da safra.

Um defensivo pode ser tecnicamente equivalente ao de outro fabricante. A capacidade de recomendar sua aplicação na janela correta, garantir a entrega e acompanhar o resultado, não necessariamente. A tecnologia pode ser reproduzida. A confiança precisa ser conquistada.

Mas será que isso continuará sendo verdade na mesma proporção? Com a velocidade de evolução da inteligência artificial, até essa vantagem começa a ser colocada em xeque. Se uma empresa consegue interpretar o histórico de uma propriedade, antecipar necessidades e oferecer recomendações individualizadas, quanto tempo levará para construir um conhecimento sobre o produtor que antes exigia décadas?

Conhecer o produtor, porém, não significa necessariamente conquistar sua confiança. No campo, ela também depende de presença, responsabilidade e capacidade de resolver problemas quando algo não sai como planejado. A inteligência artificial pode acelerar o conhecimento sobre o cliente, mas não garante que ele confiará em quem está do outro lado.

O relacionamento continua sendo uma vantagem. Mas talvez não seja mais uma proteção suficiente por si só.

Três migrações que mudam o jogo

Quando empresas diferentes acessam tecnologias semelhantes, a diferenciação passa a depender do que cada uma faz com elas. No agro, vejo três migrações acontecendo ao mesmo tempo.

A primeira é de produto para serviço. Quando o produto fica fácil de comparar ou substituir, vender só o insumo expõe a empresa à competição por preço.

O fornecedor passa a ser cobrado não apenas pelo que entrega, mas pela capacidade de acompanhar o desempenho e contribuir para o resultado da safra seguinte. A venda deixa de terminar na nota fiscal.
A segunda é de marca para entrega.

A tradição continua importante, mas precisa ser confirmada a cada ciclo. Chegar na hora, na dose e no talhão certo fortalece uma relação mais do que qualquer promessa comercial. Reputação deixou de ser só acervo e passou a depender do histórico recente. O que a empresa entregou na última safra pesa na decisão da próxima.

A terceira é de discurso para precisão. O produtor não precisa apenas saber se uma tecnologia funciona. Precisa saber se funciona naquela propriedade, com aquele histórico de solo, aquelas condições de clima, aquele custo e aquele retorno. A recomendação média perde espaço para a decisão contextualizada.

As três migrações convergem para um mesmo ponto: a capacidade de aprender com cada interação e transformar esse aprendizado em uma entrega melhor na safra seguinte.

Quando cada venda, cada recomendação agronômica e cada resultado operacional alimentam a decisão seguinte, o relacionamento deixa de ser apenas um canal de vendas e vira uma fonte contínua de aprendizado.

Mas existe uma diferença importante entre ter acesso ao cliente e ter inteligência sobre ele. É aí que a inteligência artificial entra: não para substituir a relação de confiança, mas para organizar informações, identificar padrões e transformar o histórico de cada produtor em recomendações cada vez mais individualizadas.

Essa capacidade de aprendizado abre caminho para crédito ajustado ao perfil de risco, seguros mais individualizados, recomendações agronômicas contextualizadas e decisões comerciais mais antecipadas.

O que passa a valer uma empresa

Para investidores e executivos, isso muda a régua. Plataforma sofisticada, equipe de engenharia e funcionalidades exclusivas continuam relevantes, mas já não justificam sozinhas uma avaliação elevada.

A pergunta de diligência passou a ser o que a empresa construiu que o concorrente não reproduz com a mesma facilidade: quantos clientes permanecem por várias safras, com que frequência usam a solução, quanto custa atendê-los e o que a empresa aprende a cada interação.

Existe, porém, uma diferença importante no agronegócio: o software pode evoluir diariamente, enquanto a validação agronômica muitas vezes depende do ciclo de uma safra.

Uma coisa é construir a tecnologia. Outra é comprovar, no campo, que ela funciona e gera resultado.

Cooperativas, revendas e distribuidores já têm boa parte dessa infraestrutura comercial. Startups ainda gastam para construí-la. Mas existe uma oportunidade dos dois lados.

Quem já tem o relacionamento precisa aprender a extrair inteligência dele. Quem está chegando pode usar a tecnologia para construir esse conhecimento em uma velocidade que antes não era possível.

A próxima grande disputa do agronegócio não vai ser por quem tem mais clientes. Vai ser por quem aprende mais rápido com os clientes que já tem. Porque conhecer o produtor há trinta anos não significa aprender com ele há trinta anos.