Fernando Rodrigues
Coluna
Fernando Rodrigues

Diretor da Rural, Rodrigues iniciou sua trajetória profissional no mercado financeiro, atuando com gestão de risco de commodities e migrou para a construção de um ecossistema voltado à inovação no campo. Fala sobre tecnologia e inovação.

Quando economizar água vira receita no campo

Com satélites, inteligência artificial e dados de irrigação, grandes corporações começam a pagar produtores rurais por eficiência hídrica.

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A água sempre foi tratada como um insumo quase invisível da agricultura. Está no pivô, na conta de energia e no risco climático que o produtor carrega todos os dias. Agora começa a aparecer em outro lugar: no balanço das grandes corporações globais.

Setenta por cento de toda a água doce consumida no planeta vai para a agricultura — não para a indústria, não para as residências, para o campo. Esse número, da FAO, ajuda a explicar por que um novo tipo de capital começou a entrar nas fazendas: o dinheiro de empresas que precisam reduzir ou compensar seu consumo hídrico na outra ponta da cadeia.

Nos últimos anos, uma AgTech fundada em Córdoba, na Argentina, passou a conectar esses dois mundos. A Kilimo criou uma plataforma que combina imagens de satélite, dados climáticos, informações de solo e dados operacionais da própria fazenda para recomendar o uso mais eficiente da irrigação.

Casos documentados por parceiros corporativos apontam nessa direção. Em uma propriedade monitorada no Chile, com cultivo de nogueiras e limoeiros, o consumo de água por hectare caiu 40% nos meses de pico de irrigação entre 2022 e 2025, segundo reportagem da Microsoft News LATAM. Já na bacia do Maipo — região que abastece 80% da água consumida em Santiago — projeto oficial da Microsoft com a startup registrou redução de 13% no uso de água em 450 hectares de área agrícola monitorada.

A tese é simples: quando a água economizada pode ser medida, verificada e remunerada, ela deixa de ser apenas um insumo. Passa a ser um ativo. E o produtor que aprender a gerir esse ativo pode ser pago por isso.

Entrar no mercado e precificar o produto

Durante os primeiros anos, a empresa operou como muitas AgTechs: vendia tecnologia diretamente para o produtor. O produto fazia sentido agronomicamente. A conta econômica nem tanto.

O produtor podia querer economizar água. Mas, na prática, essa decisão exigia investimento, mudança de manejo e confiança em uma tecnologia cujo retorno nem sempre era imediato ou evidente. A prioridade da fazenda continuava sendo custo de energia, risco de produtividade, investimento em pivô, preço da commodity, acesso a crédito e dezenas de outros problemas mais urgentes.

A virada veio quando a empresa percebeu que o produtor não era o único interessado nessa eficiência. Do outro lado estavam grandes corporações com metas de sustentabilidade e, mais importante do que isso, risco operacional real ligado à escassez de água.

Muita gente ainda não associa inteligência artificial e data centers ao consumo de água. Mas a infraestrutura digital também depende de recursos físicos: energia, território e água para resfriamento. Com a expansão da inteligência artificial, essa conta tende a ficar mais sensível.

Indústrias de bebidas dependem de bacias saudáveis para garantir abastecimento e licença para operar. Cadeias de alimentos precisam de previsibilidade hídrica para manter produção. Em várias regiões do mundo, água deixou de ser tema ambiental e virou limite concreto de expansão.

O que antes parecia uma agenda distante de sustentabilidade começa a virar uma estrutura de financiamento. Uma empresa âncora lidera. Outras entram com compromissos menores. A tecnologia mede. O produtor executa. O pagamento chega na ponta.

O modelo começa pela bacia hidrográfica. A partir de dados validados e modelos hidrológicos, a empresa identifica onde a eficiência hídrica pode gerar maior impacto. Produtores locais adotam a tecnologia para manejar melhor a irrigação. O volume de água economizado é medido, validado e convertido em pagamento direto ao produtor.

Não se trata de produzir somente em nome da sustentabilidade. Trata-se de produzir com mais precisão, usar menos água e ser remunerado pela diferença.

Por que Amazon, Microsoft e Coca-Cola entram nessa conta

A motivação dessas empresas não é apenas reputacional — é operacional. A Amazon cita a startup como parceira no Brasil em sua agenda de sustentabilidade hídrica, com foco em ajudar produtores a calcular consumo de água e monitorar condições do solo a partir de decisões baseadas em dados. A iniciativa faz parte da meta da empresa de ser “water positive” em suas operações de data centers até 2030. Ainda não há, porém, resultados públicos de escala ou impacto do projeto brasileiro.

A Microsoft desenvolveu modelo semelhante no Chile, com foco na bacia do Maipo. A Coca-Cola Chile também aparece como parceira em iniciativas de eficiência hídrica na mesma bacia, apoiando agricultores na transição para práticas mais sustentáveis e voltadas à segurança hídrica.

Cada empresa tem sua razão específica. Todas chegaram ao mesmo ponto: água virou continuidade de negócio. E o modelo transformou esse interesse corporativo em remuneração direta para o produtor rural que consegue entregar eficiência comprovada.

Resultado acumulado até hoje, segundo a startup: mais de 2.000 produtores beneficiados e 30 milhões de metros cúbicos de água conservados em sete países — volume equivalente, conforme cálculo da própria empresa, ao abastecimento de 48 milhões de pessoas por um ano.

O que isso muda para o agro brasileiro

O Brasil concentra cerca de 12% de toda a água doce superficial do planeta, segundo a ANA, e é uma das maiores potências agrícolas do mundo. Ter água em abundância não é garantia de vantagem competitiva, cada vez mais, é uma responsabilidade que o mercado internacional vai cobrar com crescente rigor sobre rastreabilidade e eficiência.

O uso de irrigação ainda não está no centro da economia agrícola brasileira. O país segue majoritariamente dependente do regime de chuvas. Mas isso começa a mudar.

Com o clima mais instável, a irrigação deixa de ser apenas uma ferramenta para aumentar produtividade e passa a ser uma estratégia para reduzir volatilidade, proteger margem e trazer previsibilidade à produção. Em um agro cada vez mais exposto a secas, veranicos e eventos extremos, controlar melhor a água pode significar controlar melhor o risco.

A combinação entre pivôs, dados climáticos, sensores, imagens de satélite e inteligência artificial tende a colocar a gestão hídrica no centro da competitividade do campo. Não porque o Brasil não tenha água, mas porque ter água já não basta. Será preciso provar que ela está sendo bem usada.
O próximo ativo do agro pode não estar apenas na saca, no boi ou no hectare. Pode estar no litro de água que deixou de ser desperdiçado. Desde que alguém consiga medir, confiar e pagar por ele.