Fernando Rodrigues
Coluna
Fernando Rodrigues

Diretor da Rural, Rodrigues iniciou sua trajetória profissional no mercado financeiro, atuando com gestão de risco de commodities e migrou para a construção de um ecossistema voltado à inovação no campo. Fala sobre tecnologia e inovação.

Quem vai colher o agro do futuro?

A política de deportações de Trump está esvaziando os campos americanos. Mas o efeito mais duradouro não será político. Será tecnológico.

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Há morangos apodrecendo no campo na Flórida. Cerejas caindo das árvores no Oregon. Mirtilos perdidos no chão em New Jersey. Não por seca. Não por praga. Por falta de gente para colher.

Esse é o quadro real do agro americano em 2025. E ele tem nome, sobrenome e política pública.

O perfil de quem colhe

Mais de 70% dos trabalhadores rurais americanos nasceram fora dos EUA, a maioria no México. Mais de 40% estão no país sem documentação regular, segundo o próprio USDA. É esse o perfil humano que move a colheita americana há décadas: imigrante, migrante, invisível para boa parte da cadeia, mas absolutamente essencial para que a fruta chegue à gôndola.

Brandon Raso cultiva mirtilos em New Jersey. Para a colheita, ele precisaria de 600 trabalhadores. Em 2024, conseguiu preencher apenas um terço das vagas. Resultado: 2,5 milhões de libras de mirtilos perdidos no chão, prejuízo estimado em US$ 5 milhões. No Oregon, um produtor de cerejas calculou entre US$ 250 mil e US$ 300 mil em receita simplesmente apodrecendo nas árvores.

"Infelizmente, não conseguimos colher" é a frase que resume a temporada de 2025 para muitos produtores americanos.

A política que esvaziou o campo

O governo Trump destinou US$ 170 bilhões extras ao ICE e à patrulha de fronteira até 2029, com meta de deportar pelo menos 1 milhão de imigrantes por ano. Entre março e julho de 2025, o setor agrícola americano perdeu 155 mil trabalhadores. Não foi coincidência. Foi consequência.

Em outubro de 2025, a própria administração reconheceu que o aperto imigratório estava causando escassez de mão de obra e risco de desabastecimento alimentar. Ao mesmo tempo, o assessor Stephen Miller pressionava o Departamento de Segurança Interna por 3 mil deportações por dia. Nas fazendas da Califórnia, agricultores relataram que até 70% dos seus trabalhadores simplesmente deixaram de aparecer após as operações do ICE.

Produtores de laticínios na Pensilvânia chegaram a vender seus rebanhos porque não encontraram trabalhadores dispostos a substituir os imigrantes deportados. Americanos natos, conforme documentado por John Rosenow, um produtor de laticínios do Wisconsin que recebeu 150 candidatos em 15 anos: apenas dois eram americanos, e esses dois aplicaram apenas para cumprir exigência do seguro-desemprego.

Um setor que envelhece sem sucessor

O problema da mão de obra se soma a outro dado que o Censo Agrícola do USDA de 2022 escancarou: o produtor rural americano tem, em média, 58,1 anos. É a força de trabalho mais velha do país, com média de mais de dois anos acima de qualquer outra profissão. Mais de 40% dos agricultores americanos têm 65 anos ou mais.

Não há sucessor formado. Não há trabalhador local disponível. E o imigrante que sustentava essa operação está sendo deportado. A janela para uma transição gradual está fechando.

A Califórnia: o paradoxo mais caro do agro americano

A Califórnia produz mais de 40% dos vegetais americanos e quase 70% de todas as frutas e nozes do país. É o estado onde a colheita manual ainda é dominante, onde a concentração de trabalhadores imigrantes é maior, e onde, portanto, o impacto das deportações é mais severo.

E é também o único estado americano que ainda proíbe o uso pleno de equipamentos agrícolas autônomos quando há trabalhadores no campo. A regulação do Cal/OSHA, criada em 1977, décadas antes da existência de qualquer veículo autônomo, exige um operador estacionado nos controles de qualquer equipamento autopropelido.

O resultado é uma contradição difícil de explicar: carros autônomos da Waymo circulam pelas ruas congestionadas de São Francisco e Los Angeles, enquanto a mesma tecnologia é proibida em campos agrícolas abertos no interior do estado.

O restante dos EUA já opera sem essa restrição. A Califórnia está revisando a norma, com comitê consultivo formado em 2024, mas o processo é lento. E a lavoura não espera.

A próxima fronteira: robótica com inteligência artificial

A escassez forçada está acelerando o que o mercado já sinalizava. O mercado global de robótica agrícola era avaliado em US$ 7,3 bilhões em 2024 e deve atingir US$ 26 bilhões até 2032. Não é projeção especulativa: é resposta a uma demanda real e crescente.

Em abril de 2025, a Harvest CROO Robotics anunciou que seu robô de colheita de morangos atingiu viabilidade comercial, operando em paridade com colhedores humanos. A startup DailyRobotics, israelense, prepara-se para o lançamento comercial na Califórnia ainda esse ano, com um sistema que, segundo a empresa, colhe de 2 a 3 vezes mais rápido que um humano, com braços robóticos que “abraçam” o fruto sem amassar. Pesquisadores da Universidade de Washington desenvolveram um robô que usa um jato de ar para encontrar morangos escondidos sob folhagens, resolvendo um dos maiores desafios técnicos do setor.

O efeito Trump no ritmo da inovação

Existe uma lei não escrita da inovação: tecnologia avança no ritmo que a necessidade permite. Quando a necessidade é confortável, a adoção é lenta. Quando a necessidade é aguda, o ritmo muda. O que o governo Trump fez, intencionalmente ou não, foi transformar uma necessidade crônica em crise aguda. E crises agudas mudam o ritmo de adoção de tecnologia de forma permanente.

O produtor que perdeu 70% da mão de obra em um verão não vai esperar o próximo ciclo para tomar uma decisão. Ele vai buscar o robô, o sistema autônomo, a plataforma de monitoramento que reduza sua dependência de um recurso que se mostrou frágil demais. Não por convicção tecnológica. Por sobrevivência do negócio. E essa é a forma mais eficiente de adoção que existe: a necessidade exposta.

Antes de 2025, a automação da colheita era pauta de longo prazo no agro americano. Uma tendência, não uma urgência. Com as deportações, virou urgência. Investidores que esperavam para entrar no setor de robótica agrícola aceleraram as apostas. Startups que estavam em fase de piloto receberam pressão para chegar ao campo comercial. O mercado de robótica agrícola vai crescer porque a demanda foi forçada antes do prazo.

O que o campo americano nos ensina

O que está acontecendo nos Estados Unidos é um laboratório acelerado. Uma política de imigração empurrou o agro para a fronteira tecnológica mais rápido do que qualquer plano estratégico conseguiria. A escassez forçada expôs uma dependência que o setor conhecia, mas tolerava. Agora não tolera mais.

O Brasil observa esse movimento sem o conforto que alguns imaginavam. A mão de obra no campo existe, mas é escassa e com qualificação decrescente. A escala existe, mas não se sustenta indefinidamente sobre trabalho manual barato. O know-how de campo existe, mas conhecimento sem tecnologia perde competitividade safra a safra.

O que o agro americano mostra com clareza brutal é que a robotização da colheita não é mais uma questão de futuro. É uma questão de quando a necessidade vai bater na porta de cada produtor, e o relógio já está correndo contra quem decidiu esperar.

A questão não é se a robótica vai transformar o agro. Ela já está se transformando. A questão é quem vai liderar essa transformação com tecnologia e de fato colher o agro do futuro.