O que o aquecimento global tem a ver com o seu prato de comida?

Não há mais tempo para ignorarmos o aquecimento global. De dentro dos nossos carros, empresas, salas de estar, estamos posicionados e termicamente confortáveis, mas o mundo não para de pegar fogo lá fora - por vezes - literalmente.
As ondas de calor sem precedentes que agora testemunhamos como regra, em estações do ano cada vez menos bem delimitadas, a urgência bate à nossa porta gritando, de forma que não conseguimos - e nem devemos! - ignorar. E, como sempre e em todos os temas mais importantes da nossa sociedade, há uma população que sente mais: aqueles que são economicamente vulneráveis.
O elo mais frágil da cadeia, aquele que acorda quando ainda é noite e sai às ruas fazendo a máquina do mundo girar sem que a gente perceba, tende a experimentar na pele as durezas de forma mais nua e mais crua. E com a crise climática, não seria diferente. Segundo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, sim, as pessoas mais pobres são as mais afetadas pelo aquecimento global por diferentes motivos: são mais vulneráveis a doenças do aparelho circulatório e respiratório, têm menos recursos e condições fisiológicas para se adaptar ao calor e vivem em moradias com menos isolamento térmico, como barracos de madeira, que absorvem mais calor.
Parece óbvio, mas esse tema deveria ser a nossa prioridade número um. Era para estarmos todos parados, preocupados, pensando junto em soluções coletivas para ontem. A dor do outro deveria doer em nós mesmos, enquanto seres humanos, enquanto sociedade.
E engana-se quem pensa que isso se trata de individualidades. Quando falamos de uma parcela da população, estamos falando de todos nós. Somos um coletivo que sentirá a longo prazo, pode demorar mais para chegar em algumas classes sociais, mas todos seremos impactados. Prova disso foi a catástrofe no litoral norte de São Paulo há 2 anos, em fevereiro de 2023, que deixou um rastro de 65 mortos, muita destruição e muitos traumas.
Vi de perto como a fúria da natureza não vê classe, cor ou crença, não vê o tamanho da sua casa ou os valores da sua conta bancária. Me senti impotente, ainda que estivesse ajudando como podia, oferecendo meu trabalho pessoal, auxílio logístico e financeiro, mas ainda assim, de mãos atadas, testemunhando o início dos novos tempos que infelizmente não prometem bons ventos caso a gente não se mexa.
Os mais pobres tendem de fato a ocupar posições no mercado que sustentam toda a base da sociedade - e esse é o ponto que quero chegar. Uma dessas posições, talvez a mais cara para mim, é a produção de alimentos, essencial para a manutenção da vida como um todo. O Pacto Contra a Fome, dentre seus muitos trabalhos, tem a missão de trazer dados que joguem luz aos problemas que defendemos: o índice altíssimo e inaceitável de fome em um país que produz tanto alimento, mas que também desperdiça quantidades abusivas do mesmo.
Nessa busca por números que ilustrassem o tamanho do problema, me deparei com vários que nunca esqueci. Um deles foi sobre o fato de que os domicílios rurais têm 1,4 vezes mais chance de passar fome do que os urbanos. Imagine então com o aquecimento desenfreado da temperatura do planeta? Isso ficará ainda pior e acredite, chegará ao seu prato também. Pois afeta tanto a produção do alimento que seria consumido ou vendido pela sua família, como também aquele que é vendido e serve para seu sustento. Aquele que chega na minha, na sua, nas nossas casas.
É justamente nesses domicílios rurais que famílias inteiras moram e trabalham, trabalho esse cujo objetivo final é trazer alimentos para a prateleira do mercado mais próximo das nossas casas. Não se trata de pensar de maneira egoísta, mas sim exercitar o olhar macro da coisa toda: o aquecimento global nos afeta não só nas alterações de temperatura inesperadas que podem atrapalhar os nossos planos. Ele influencia no cultivo dos alimentos e afeta toda a cadeia de pessoas envolvidas nesse processo tão fundamental para todos.
A crise é climática, social e coletiva. E é trabalho para todos nós, da sociedade civil, de conscientização, empatia e exercício da cidadania; dos investimentos privados, que devem concentrar seu poder aquisitivo em causas como essa e somar esforços na luta da forma que puder; e, claro, do Estado, que detém a capacidade de pensar em projetos mais abrangentes e a longo prazo, mas que, muitas vezes, morrem pelo caminho por falta de fôlego, interesse, alternância de poder, entre outros motivos que transpassam a urgência que o tema exige.
