Geyze Diniz
Coluna
Geyze Diniz

Cofundadora e presidente do Conselho do Pacto Contra a Fome, economista e conselheira da Península Participações

O cuidado de cuidar de quem cuida

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Este artigo não se endereça somente às mães. Ele é para trazer uma reflexão maior, para mulheres, homens, com ou sem filhos, pais e claro, mães. Porque todos nós, temos ou tivemos uma mãe.

Quando alguém fala em mãe, a primeira imagem que vem é quase sempre a mesma: alguém cuidando. É instintivo. Mas o cuidado que associamos tão naturalmente à mãe raramente volta para ela com a mesma intensidade. E talvez seja exatamente isso que o Dia das Mães devesse nos convidar a pensar não só para celebrar quem cuida, mas para refletir sobre como todos nós fazemos parte dessa rede.

Maternidade é uma das palavras mais carregadas que existem. Carrega expectativa, idealização, beleza, força, instinto, amor. Mas carrega também, muitas vezes, um peso silencioso que poucos param para considerar. Cada mulher que atravessa essa experiência a vive de um jeito único e isso já seria razão suficiente para olharmos para ela com mais cuidado e menos julgamento.

Ser mãe é desbravar um território de descobertas constantes. Entre o amor e os ajustes do dia a dia, há dúvidas, aprendizados e recomeços. Um tipo de entrega que se reinventa com o tempo. E quanto mais natural for esse caminho ouvindo a intuição, aprendendo com quem está perto, agindo com serenidade, a tendência é que essa maternidade se viva de um jeito mais inteiro: para a mãe, para o filho, para o pai e para quem convive ao redor.

No meu caso, sempre sonhei em ser mãe. E aprendi cedo que ninguém faz isso sozinha. Tive pessoas perto que me ajudaram nos momentos em que precisava trabalhar, ou simplesmente respirar, porque esse equilíbrio entre os papéis que desempenhamos é fundamental. Amigas para trocar, pessoas que me sustentaram no processo de autoconhecimento. Esse olhar de que não estamos sós não é privilégio. É necessidade.

E sei que nem todas têm essa rede. Há muitas mães solo que lutam bravamente, com coragem e instinto, para criar e educar seus filhos diante de tantas adversidades. Por isso a pergunta precisa ser feita: quem cuida de quem cuida? Quem cuida daquela que dá a vida por seus filhos?

A pergunta vem não como crítica, mas como forma de continuidade sustentada. Porque essa mulher também precisa de apoio, de escuta, de compreensão e, por que não, de divisão de tarefas.

É aí que as redes de apoio ganham protagonismo. Mais do que dividir tarefas, elas ampliam o cuidado. Parceiros, famílias, amigos, políticas públicas: todos compõem esse entorno que sustenta uma mãe. Não porque ela não dê conta, mas porque ela não precisa dar conta sozinha.

A ciência reforça o que muitas mulheres já sentem na pele. Estudos de neurociência mostram que o cérebro passa por transformações profundas durante a gestação e o pós-parto, um processo de neuroplasticidade materna. Áreas ligadas à empatia, ao vínculo afetivo e à sensibilidade emocional se reorganizam para fortalecer a conexão com o bebê. Pesquisadores como Barba-Müller et al. (2019) e Pritschet et al. (2024) documentaram que essas mudanças podem persistir por até dois anos após o parto.

Mas essa mesma intensidade também pede cuidado: as novas demandas, somadas às mudanças hormonais e à rotina intensa, podem impactar o bem-estar físico e emocional. Falar sobre isso com naturalidade não reduz a experiência materna, ajuda a compreendê-la.

Há um movimento crescente de reconhecer a mãe para além de um papel. De enxergar a mulher inteira que está ali, com suas próprias necessidades, ritmos e limites. Isso não diminui o amor envolvido. Ao contrário cria espaço para que ele exista com mais fôlego, mais equilíbrio e mais verdade.

Ampliar esse repertório de cuidado passa por um gesto simples: estar presente, dividir o cotidiano, prestar atenção. Não como exceção, mas como prática. Porque sustentar quem sustenta é uma forma concreta de fortalecer tudo o que vem depois.

No fim, talvez seja isso que o Dia das Mães possa nos lembrar, que o amor que uma mãe dedica ao cuidar pode encontrar eco ao redor. O melhor presente não está só em reconhecer esse amor, mas em criar condições para que ele continue florescendo, com leveza e companhia.