Geyze Diniz
Coluna
Geyze Diniz

Cofundadora e presidente do Conselho do Pacto Contra a Fome, economista e conselheira da Península Participações

O peso invisível das escolhas

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Todos os dias, fazemos escolhas e lidamos com as suas consequências positivas ou negativas, no curto ou no longo prazo. Das menores às maiores, vivemos cercados por elas e somos obrigados, mesmo sem perceber, a tomar um caminho. Algumas parecem pequenas demais para merecer atenção: o que vestir, o que pedir no almoço, qual mensagem responder primeiro. Outras carregam peso suficiente para atravessar semanas inteiras de pensamento.

O curioso é que o cérebro não diferencia tudo isso tão bem quanto imaginamos. Cada decisão, mesmo que banal, consome algum nível de energia mental. Existe inclusive um número que circula bastante na literatura popular: fazemos cerca de 35 mil escolhas por dia. Mas é difícil comprovar exatamente esse número, porque há uma série de fatores envolvidos nesse processo.

O que os estudos mais sólidos já conseguem cravar é que essa conta depende do que chamamos de "decisão". Pesquisadores da Universidade Cornell estimaram, por exemplo, que tomamos aproximadamente 200 decisões diárias apenas relacionadas à comida. Já escolhas conscientes e deliberadas, como trabalho, dinheiro ou relações, aparecem em quantidade muito menor. O resto acontece quase no automático: para onde olhar, como atravessar uma rua, qual palavra escolher numa frase, virar à direita ou à esquerda no corredor do seu trabalho.

Foi o psicólogo Daniel Kahneman quem ajudou a popularizar a ideia de que operamos de duas formas diferentes. Uma é rápida, intuitiva e automática. A outra é lenta, analítica e exige esforço. Em geral, passamos o dia alternando entre as duas sem perceber. Acontece que o segundo modo cansa. É daí que surge o conceito de fadiga de decisão: quanto mais escolhas acumulamos ao longo do dia, pior tende a ficar a qualidade das decisões seguintes. E isso muitas vezes gera o estresse diário por fazer parte do nosso cotidiano sem que a gente se dê conta.

Você já deve ter sentido isso no supermercado. As primeiras escolhas são fáceis, até prazerosas; mas, lá pelo fim das compras, com o carrinho cheio e a cabeça já cansada, é comum jogar qualquer coisa dentro só para encerrar logo. Não por acaso, as lojas posicionam doces perto do caixa: é ali, no momento de maior fadiga, que resistimos menos.

Pense também em quando você abre um cardápio extenso demais. As primeiras páginas a gente lê com atenção; lá pela terceira, já cansamos e acabamos pedindo "o de sempre" ou apontando qualquer prato só para devolver o menu ao garçom. O excesso de opções não amplia a liberdade, ele a esvazia. É o paradoxo da escolha, quanto mais alternativas, mais difícil decidir, e mais provável que a gente desista de decidir bem.

Não por acaso, alguns nomes famosos transformaram a rotina em repetição calculada. Steve Jobs praticamente só usava camisa de gola alta preta e jeans. Barack Obama dizia alternar apenas entre ternos azuis e cinzas. A lógica não era estética, mas cognitiva, preservar energia mental para as decisões consideradas mais importantes. Isso está diretamente ligado ao fascínio contemporâneo pela ideia de "otimizar o cérebro", como se toda escolha evitada nos tornasse automaticamente mais produtivos.

E talvez nunca tenha havido tanto o que decidir. Vivemos num ambiente em que o fluxo de informação supera, em muito, a nossa capacidade de processá-la. Estima-se que algo em torno de 34 gigabytes de informação chegue à pessoa média todos os dias, um volume que fragmenta a atenção e torna cada decisão um pouco mais lenta e mais cansativa. Há pesquisas indicando que uma pessoa no trabalho quando alterna entre aplicativos ou assuntos leva cerca de 23 minutos para recuperar o foco por completo depois de cada interrupção. O tempo, hoje, é talvez o recurso mais escasso que temos e, ainda assim, é o que mais distribuímos em pequenas frações, quase sem perceber, entre notificações, abas abertas e decisões que nem escolhemos conscientemente tomar.

Contudo, talvez o ponto mais interessante não seja eliminar decisões, e sim entender quais delas realmente merecem nossa atenção. Há escolhas que drenam porque são excesso puro. Outras cansam porque carregam medo, expectativa, culpa ou necessidade de agradar. No fim, decidir também é uma forma de revelar nossas próprias prioridades, e aquilo que ainda nos paralisa talvez diga mais sobre nossos conflitos do que sobre as opções disponíveis.

Talvez a pergunta certa não seja "como decidir menos", mas "onde quero gastar o que tenho de melhor". Porque a energia e o tempo que poupamos no automático são justamente o que sobra para o que importa: uma conversa difícil, um projeto que exige coragem, uma presença mais inteira em quem amamos. Decidir bem, no fim, é menos sobre acertar sempre e mais sobre proteger espaço para as escolhas que só nós podemos fazer.