Geyze Diniz
Coluna
Geyze Diniz

Cofundadora e presidente do Conselho do Pacto Contra a Fome, economista e conselheira da Península Participações

Tem lugar para todos na mesa?

Há algo de profundamente bonito na maneira como as crianças olham para o mundo: com curiosidade, capacidade de se encantar e uma disposição quase natural para imaginar possibilidades. É como se tudo pudesse ser feito, sem impedimentos ou limitações.

Falar sobre infância é, necessariamente, falar sobre o futuro. Não apenas o futuro das crianças, mas o futuro de todos nós. Escolho o Dia das Crianças para trazer essa provocação que me inquieta e que espero que gere reflexões.

A ciência tem mostrado que os primeiros anos de vida são muito mais importantes do que imaginávamos. Como a própria UNICEF reforça, o cérebro da criança pequena tem enorme plasticidade e é particularmente sensível nos primeiros mil dias. As experiências vividas na infância ajudam a construir a arquitetura do cérebro e influenciam capacidades de aprendizagem, saúde e bem-estar ao longo de toda a vida. Afeto, segurança, brincadeira e estímulos adequados fazem parte das condições que favorecem esse desenvolvimento.

Mas existe uma outra face dessa história. Uma criança não escolhe o lugar onde nasce, a renda da família, a qualidade da escola que frequenta, se terá água tratada em casa ou se poderá fazer refeições adequadas todos os dias.

No Brasil, 28,8 milhões de crianças e adolescentes de 0 a 17 anos viviam em situação de pobreza multidimensional em 2023, segundo também a UNICEF. O número representa 55,9% dessa população. É uma redução importante em relação aos 34,3 milhões registrados em 2017, mas pasmem, ainda estamos falando de mais da metade das nossas crianças.

E a pobreza infantil não significa apenas falta de dinheiro. O estudo da UNICEF considera dimensões como renda, educação, acesso à informação, água, saneamento, moradia e proteção contra o trabalho infantil, além da segurança alimentar.

Entre todas essas privações, há uma que começa antes mesmo do primeiro choro. O cérebro começa a ser construído ainda na barriga da mãe e, nos primeiros anos de vida, forma mais de um milhão de novas conexões por segundo, segundo o Center on the Developing Child, da Universidade Harvard. Para erguer essa estrutura, o corpo precisa de matéria-prima: energia, proteínas, ferro, zinco, iodo, vitaminas. Quando a gestante não se alimenta bem, o bebê pode começar a vida com esse desenvolvimento comprometido, porque cada nutriente faz mais diferença em uma fase específica da formação do cérebro. E, quando a falta de comida persiste na infância, os estudos associam a desnutrição a prejuízos na linguagem, na aprendizagem e no desempenho escolar, marcas que podem acompanhar a pessoa até a vida adulta. A boa notícia é que a alimentação adequada, somada a afeto e estímulo, ajuda a recuperar parte do que foi perdido.

Por isso, cuidar da infância exige muito mais do que distribuir presentes em outubro: exige garantir seus direitos durante os 365 dias do ano, a começar pela comida de verdade no prato.

Cada criança que brinca, pergunta, inventa uma história ou imagina uma profissão nos lembra que existem futuros que ainda não foram escritos. E que temos responsabilidade sobre as condições em que essas histórias poderão ser construídas.

Investir na infância é, portanto, uma escolha de sociedade, e ela começa pelo mais básico: nenhuma criança consegue aprender, brincar ou imaginar de barriga vazia. Uma alimentação digna e de qualidade, desde a gestação, é o piso sobre o qual todo o resto se apoia. Educação, saúde, saneamento e espaços seguros dependem dele para funcionar.

Esse piso não é tarefa de uma pessoa só, nem de um único setor. Garantir comida de qualidade para toda criança exige que cada parte da sociedade assuma o seu papel.

Ao poder público cabe a base: políticas que acompanhem a gestante desde o pré-natal, a alimentação escolar de qualidade, a transferência de renda para as famílias que mais precisam e o compromisso de manter esses programas de pé, independentemente de quem esteja no governo. Às empresas, cabe olhar para a sua cadeia e para as suas pessoas: oferecer condições para que os trabalhadores alimentem bem suas famílias, investir em projetos que enfrentem a fome e usar sua capacidade de gestão e logística a serviço do que já funciona. À sociedade civil, cabe o trabalho de ponta: são as organizações que chegam onde o Estado e o mercado não alcançam, conhecem o território e transformam recursos em comida no prato. E às famílias e a cada um de nós, cabe não naturalizar a fome, apoiar quem atua nessa causa e cobrar que ela esteja no centro da agenda.

Nenhum desses atores resolve sozinho, mas todos, juntos, podem. A fome infantil não é um destino: é uma escolha coletiva que ainda estamos fazendo, e que podemos deixar de fazer. Cuidar das crianças dos outros com o mesmo empenho com que cuidamos das nossas é o que transforma esperança em futuro.

Quando dizemos que as crianças são o futuro, corremos o risco de esquecer que elas também são o presente. E é no presente que construímos as condições para que esse futuro exista. Eu espero que a gente celebre a capacidade que as crianças têm de imaginar um mundo diferente, mas, principalmente, encontremos coragem para começar a construí-lo com elas.

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