Você dá conta de tudo?

Outro dia, um vídeo me fez parar. Nele, Shonda Rhimes criadora de séries como Grey's Anatomy e uma das mulheres mais poderosas da televisão americana respondia à pergunta que a acompanha há anos: "Como você dá conta de tudo?". E a resposta dela dita com total honestidade, foi enfática: eu não dou.
Ela explica: sempre que está tendo sucesso em uma área da vida, quase certamente está falhando em outra. Se está brilhando no trabalho, está perdendo algum momento em casa. Se está presente em casa, está deixando algo do trabalho para depois. Não é falta de organização, nem de esforço. É a matemática honesta de uma vida atribulada.
Fiquei pensando em quantas vezes eu mesma já ouvi e já fiz essa pergunta. E em quanto tempo passei acreditando que a resposta era uma questão de método: com a agenda certa, a disciplina certa, o esforço certo, seria possível manter tudo funcionando em alto rendimento, o tempo todo. Hoje penso diferente. Não é possível. E talvez nem seja desejável.
A vida moderna se parece com aquele número de circo em que a gente gira vários pratos ao mesmo tempo: o trabalho, a família, a saúde, as relações, os projetos, os esportes, os hobbies, a casa. E a verdade que ninguém conta é que, de vez em quando, um prato cai, ou melhor vários pratos caem. Nós, mulheres, sabemos disso de um jeito muito particular. Somos profissionais, mães, filhas, companheiras, amigas, cuidadoras. O mundo mudou e nos abriu espaços que as gerações anteriores não tiveram. Mas junto com os espaços vieram as expectativas: sermos realizadas em tudo, presentes em tudo, impecáveis em tudo. E essa conta não fecha. Nunca fechou.
O que aprendi com o tempo é que a pergunta certa não é "como manter todos os pratos girando", mas "quais pratos não quero deixar cair agora". Porque eles não são todos iguais. Alguns são de plástico: caem, quicam, a gente recolhe depois sabendo que não quebrarão. Uma reunião remarcada, uma meta adiada, uma casa menos arrumada. Outros são de vidro: a saúde, as relações que amamos, o que dá sentido à nossa caminhada. Esses pedem atenção e não perfeição. E o "agora" muda: há fases em que o trabalho pede mais, fases em que a família pede mais, fases em que somos nós que pedimos mais.
O que mais me tocou na fala de Shonda é que ela não termina em culpa. Termina em inteireza. Ela não é menos por deixar pratos caírem, porque escolheu uma vida que a realiza. Aceitar que não daremos conta de tudo não é desistir. É maturidade. É trocar a régua impossível da entrega total pela medida real do que importa com flexibilidade e serenidade nas escolhas.
E há algo libertador em admitir isso em voz alta. Quando alguém diz "não dei conta de tudo hoje", abre espaço para que outros digam o mesmo. O tempo que passamos nos culpando pelo prato que caiu é tempo que deixamos de viver o que está diante de nós.
No fim, é disso que se trata: apreciar o tempo em presença. Não o tempo ideal, em que tudo funciona porque esse não existe. O tempo real, imperfeito, cheio, em que fazemos o que é possível e, ainda assim, encontramos beleza e leveza. A vida não espera a gente dar conta de tudo para acontecer. Ela já está acontecendo, agora, entre um prato e outro.
