Geyze Diniz
Coluna
Geyze Diniz

Cofundadora e presidente do Conselho do Pacto Contra a Fome, economista e conselheira da Península Participações

Descansar também é produzir

Estudo indica que quanto mais dinheiro se tem, maior a chance de dormir melhor
  • Foto: Shutterstock
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Vivemos em um tempo onde ócio virou quase uma transgressão. Descansar precisa de álibi. Férias e descansos precisam ser justificados e qualquer pausa vem acompanhada de culpa. Como se tivéssemos obrigação de estar o tempo todo produzindo, entregando, respondendo, performando. E, ainda assim, seguimos cansados — física e simbolicamente.

No entanto, essa pausa não é desistir do mundo,às vezes é a forma mais honesta de voltar a ele na maioria das vezes. O descanso não é o oposto do trabalho: ele é parte do processo. Desacelerar não significa desligar a cabeça, mas permitir que ela funcione de outro jeito — menos pressionada, menos utilitária, mais aberta. Pensar, imaginar e até divagar também são formas legítimas de existir e, por que não, de trabalhar melhor depois.

Há algo profundamente transformador em ocupar o tempo com coisas aparentemente aleatórias. Ler um livro que não tem nada a ver com a sua área, assistir a um filme sem compromisso intelectual, caminhar sem destino, reparar na natureza, ouvir uma conversa que não te inclui. Esse “encher a cabeça” de estímulos diversos não é dispersão, é repertório em formação.

Quando saímos da lógica da produtividade imediata, damos espaço para conexões inesperadas. Ideias raramente surgem quando estamos olhando diretamente para elas. Elas aparecem no intervalo, no desvio, na pausa para o café, no banho longo, na tarde sem pauta. O ócio, nesse sentido, é fértil, ainda que não seja possível medi-lo em planilhas.

Não por acaso, teorias clássicas da criatividade defendem esse estado de incubação. Graham Wallas, ainda no início do século XX, já falava que o processo criativo passa por fases que incluem afastamento do problema e descanso mental. Hoje, a neurociência reforça: é quando a mente está menos focada que o cérebro ativa redes responsáveis por associações complexas e insights.

Empiricamente, basta observar quem trabalha com ideias para perceber o padrão. Escritores e cientistas que têm hobbies improváveis, líderes que protegem o tempo livre como estratégia e não como luxo. O novo nasce do cruzamento entre experiências diversas, não da repetição exaustiva do mesmo estímulo.

As férias para mim funcionam como um reset simbólico. Não apagam o que veio antes, mas reorganizam prioridades, recalibram o olhar, reposicionam o desejo. Ao voltar, nunca volto igual. Surgem outras perguntas, outras referências, outro fôlego.

Defender o ócio hoje é recusar a ideia de que nosso valor está apenas no quanto produzimos. Talvez o maior equívoco seja tratar o descanso como recompensa, quando ele deveria ser condição. Porque, no fim das contas, não é apesar das pausas que seguimos criando, pensando e inovando. É justamente por causa delas.