De quem é o futuro? Que futuro?

O futuro é de quem o constrói. Não é um acidente. Ocorre de demorar para perceber as consequências de nossos atos. Por exemplo – desde quando sabemos das consequências da queima de combustíveis fosseis, das consequências de fumar tabaco, de utilizar alimentos ultra processados?
Sabemos e em alguns casos há muito tempo, mas a correção ocorre de forma muito lenta e em alguns casos, pode ser que já tenhamos ultrapassado o ponto de retorno. A exploração de combustíveis fósseis tem imensos interesses econômicos que os alimentam e não interromper sua exploração e consumo será sentido por todos. Mas as principais transformações serão mais sentidas por uma parte da população, que é invisível, que não é ouvida – são os pobres, os marginalizados e que são grande parte da população mundial.
A Inglaterra teve o mês de junho mais quente desde que se iniciaram seus registros de temperatura em 1884. E isso ocorreu em toda a Europa, com mudanças catastróficas para a saúde humana, em um continente onde a diferenciação social é menor.
Mas e no Brasil o que estamos vivendo? Que propostas estamos construindo?
É interessante observar que podemos resumir dois grandes eixos de propostas – um eixo está voltado para reduzir desigualdades e outro, ao tempo que ignora as desigualdades, busca aumentar a concentração da riqueza.
O eixo de aumentar a riqueza parte do pressuposto que o combate à desigualdade deve ser a partir do crescimento. Há tempos aprendemos que para distribuir o bolo, primeiro temos que fazê-lo crescer. E ele nunca cresce o suficiente para distribuir e quando acontece algo um pouco diferente, ocorre uma “crise fiscal” e rapidamente medidas são tomadas para controlar o caminho da riqueza. O exemplo mais próximo de nós é o de 2016 – destituiu-se a presidente, instalou-se um governo dócil e publicou-se a EC-95, apelidada de EC do Fim do Mundo! Congelaram-se os gastos públicos por 20 anos.
Interessante notar quem são os teóricos desses movimentos – propõe a luz do dia a desvinculação de gastos obrigatórios com saúde e educação, desvincular o salário mínimo da inflação, desvincular a correção das aposentadorias e pensões do salário mínimo, idem aos BPC e às políticas de distribuição de renda, como o bolsa família, pé de meia, e outros instrumentos de redução da desigualdade. O caminho, não pode ser o do aumento do gasto público e sim o do crescimento do PIB, que nunca é suficiente. Quem são esses proponentes?
Não são pessoas muito conhecidas, se apoiam em teorias ditas liberais e em autores conservadores. Quando lemos o que propõe e se identificam, são sempre representantes da área financeira, de bancos. Da Faria Lima. Para eles, as pessoas são invisíveis, o capital deve ser preservado. E isso inclui que o único gasto sagrado, que é o do pagamento do serviço da dívida publica – os juros.
A consequência da adoção desse caminho é a explosão da desigualdade social, e o que a desigualdade social promove? Redução da expectativa de vida – a população da periferia das grandes cidades, a população dos estados mais pobres do Norte/Nordeste perde em média 14 anos de expectativa de vida em relação aos do Sul/Sudeste. Quem mora nos bairros ricos de São Paulo vive 14 anos mais que os que moram na periferia. E quem mora na periferia? Os negros, os pardos, os invisíveis, os inaudíveis.
E no meio desse torvelino, os privilegiados buscam segurança, como se a segurança fosse fruto natural da violência dos negros, dos invisíveis e não consequência da desigualdade social. Mais de 70% da terceira maior população carceraria do mundo é negra ou parda, boa parte deles cumprindo condenações para as quais não foram sequer defendidos. A justiça, além de cega é injusta.
Qualquer política compensatória, seja de distribuição de renda, de promoção da segurança alimentar – garantir que as pessoas tenham acesso a três refeições por dia, seja de garantir cotas na universidade, em empregos públicos ... qualquer política pública voltada para a redução da desigualdade de raça, de gênero, são entendidos como criação de facilidades que em uma sociedade liberal devem ser evitadas. Benefícios devem ser conquistados e sobretudo – merecidos. E existem seres humanos, em particular se forem negros ou mulheres que nunca merecerão uma posição diferente da que hoje ocupam.
E parece que a explicação desse quadro pode ser reduzida à relação entre jacobinos e girondinos. Mas na verdade, tudo isso é mais complexo e diz respeito ao tipo de sociedade que queremos construir, que tipo de futuro desejamos.
O futuro será o que decidirmos construir e um futuro melhor para todos não é coisa de jacobinos e sim dos que querem um mundo melhor para todos viverem.
Nesse mundo melhor, todos têm direitos de cidadania garantidos – habitação, empregos, alimentação, saúde, educação, saneamento básico, justiça, segurança, assistência social, cultura, esporte, lazer, escala 5x2, enfim um espaço civilizatório, que será garantido através de políticas públicas financiadas pelos impostos pagos por todos, de acordo com a sua renda e consumo.
Muitos críticos da transformação civilizatória através da garantia de direitos essenciais aos cidadãos, argumentam que uma sociedade de direitos não cabe na arrecadação, que um povo que não paga suas contas não merece existir. Serão esses críticos que irão construir nosso futuro?
Vivemos em um regime democrático e de 4 em 4 anos temos a chance de trocar de governantes e, portanto, dos executivos e legisladores que nos conduzirão pelos 4 anos vindouros e que serão os artífices das políticas públicas que irão construir o futuro que desejamos. Mas para construir esse futuro, temos que elucidar nossos desejos e discutir com aqueles que elegeremos se eles pensam em um futuro como o que pensamos e queremos.
Para isso temos que ter mais claro que futuro é esse, o que é um mundo melhor? Mais igual? Mais desigual? Mais seguro? Segurança é polícia na rua prendendo negros? Qual o lugar dos negros? E das mulheres? E dos homossexuais? O que fazer com os idosos e os portadores de deficiências, o que fazer com os improdutivos? Sabão?
Sim, vivemos em um mundo muito complexo. Tudo é difícil e às vezes incompreensível para boa parte de nós. O que a taxa de juros tem a ver com o valor do dólar? O que acontece quando o presidente dos Estados Unidos decide atacar o Irã ou permitir que Israel mate palestinos que por sua vez matam judeus? Muitas dessas perguntas não tem respostas claras ou únicas, mas temos que conseguir fazer deste país, que tem excelentes condições físicas, econômicas e humanas um país melhor.
O futuro, se quisermos, poderá ser melhor. Nós podemos!
