José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

Análise: Nem combustível caro trava aumento de voos para Portugal

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Só a TAP vai operar 99 voos diretos semanais entre Brasil e Europa no verão europeu. Juntando os 17 da Latam, 7 da Azul e os 4 da Gol, a partir de setembro, a ponte aérea está lançada. As duas margens do oceano atlântico estão cada vez mais próximas.

Esta profusão de ligações poderia até ser lida apenas como uma expansão de malha, mas seria uma leitura insuficiente. O ponto decisivo é outro: o aumento acontece justamente num momento de constrangimento global para o setor aéreo, pressionado por custos, incertezas operacionais e pelo peso estratégico do combustível.

Quando, ainda assim, as companhias aéreas reforçam a conexão entre dois países, a conclusão é clara: não estamos diante de uma rota comum, mas de uma ligação que superou a condição de conveniência e passou a ocupar o terreno da necessidade.

No mundo da aviação, ninguém aumenta frequência para fazer poesia luso-tropical a dez mil metros de altitude. Avião extra é conta, risco, cálculo e convicção. E o cálculo, neste caso, revela algo maior do que um bom verão europeu: revela que a ligação entre Portugal e Brasil tem densidade histórica, econômica, cultural e humana suficiente para resistir até quando o ambiente internacional recomenda prudência.

Em linguagem de mercado, isso se chama resiliência de demanda. Em linguagem política, chama-se centralidade. Em bom português, é simples: há relações que sobrevivem ao noticiário e há outras que mandam nele. Talvez por isso mesmo a companhia aérea portuguesa (TAP) tenha escolhido, para comunicar esse aumento de frequência de voos, o dia em que o presidente Lula visitava Portugal.

O eixo Portugal-Brasil não é mais uma afinidade sentimental entre povos que falam a mesma língua e trocam gentilezas institucionais. É uma infraestrutura viva de circulação. Circulam estudantes, empresários, famílias, artistas, executivos, turistas, investidores e projetos.

Circula capital simbólico e circula dinheiro real, que é provavelmente a única parte em que a Faria Lima finalmente presta mais atenção.

Lisboa, nesse arranjo, deixou de ser apenas um destino simpático. Tornou-se plataforma, escala estratégica, porta de entrada funcional e emocional para a Europa. E é precisamente por isso que o anúncio do aumento de voos transatlânticos merece ser lido com mais ambição.

Se, num cenário de pressão sobre os custos do setor aéreo, as companhias escolhem ampliar sua presença nesta travessia, é porque enxerga aqui algo mais sólido do que um pico sazonal. Enxergam um corredor que continua a produzir valor mesmo quando a geopolítica aperta, o petróleo pesa e o humor internacional oscila. Isso não é detalhe logístico. É evidência de prioridade.

Dito de outra forma: quando o combustível sobe e a operação aperta, as companhias cortam o supérfluo. E, ao que tudo indica, a ligação entre Brasil e Portugal não entrou na categoria do supérfluo. Entrou na categoria da espinha dorsal. Essa talvez seja a melhor notícia.

O Atlântico entre os dois países já não funciona como distância. Funciona como sistema, mesmo nos momentos em que a geopolítica mais condiciona os negócios.

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