José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

Quem tem medo de um QR Code?

Investigação dos EUA e novas tarifas colocam uma pergunta muito maior em discussão: quando é que uma inovação pública deixa de ser assunto interno e passa a incomodar a maior potência econômica do mundo?

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O Financial Times contou esta semana uma história que começa numa praia do Rio de Janeiro.

Uma mulher aproxima o telefone de um QR code, paga um pacote de pipocas por Pix e segue o seu caminho. Para milhões de brasileiros, é um gesto banal.

Para Washington, tornou-se um problema comercial. E para o jornal britânico, um sinal de que uma das mais ousadas experiências financeiras do Brasil entrou definitivamente no centro da disputa mundial pelo dinheiro.

A investigação aberta pelos Estados Unidos e a ameaça de novas tarifas não colocam apenas produtos brasileiros no centro da discussão.

Colocam uma pergunta muito maior: quando é que uma inovação pública deixa de ser assunto interno e passa a incomodar a maior potência econômica do mundo?

Durante décadas, o Brasil habituou-se a importar tecnologias. Dos sistemas operativos às redes sociais, passando pelos cartões de crédito, quase toda a infraestrutura digital nasceu fora das suas fronteiras.

O Pix inverteu essa lógica.

Pela primeira vez, um sistema concebido pelo Banco Central brasileiro tornou-se tão eficiente, barato e universal que começou a competir, na prática, com modelos de negócio consolidados há décadas.

É aqui que a discussão deixa de ser tecnológica para se tornar geopolítica. Os Estados Unidos afirmam defender regras de concorrência. É um argumento legítimo e merece ser analisado com seriedade.

Mas é impossível ignorar que os principais beneficiários de uma eventual limitação do Pix seriam empresas privadas que construíram parte do seu poder mundial cobrando pela intermediação de pagamentos que hoje podem ser feitos, em segundos, quase sem custo.

Há uma ironia difícil de esconder.

Durante anos, recomendou-se aos países emergentes que investissem em inovação, inclusão financeira e digitalização da economia. O Brasil fez exatamente isso.

Quando essa inovação começou a alterar a distribuição do mercado, deixou de ser apresentada apenas como caso de sucesso e passou a ser descrita como possível distorção concorrencial.

O verdadeiro conflito ultrapassa Brasil e Estados Unidos. Ele opõe duas formas de imaginar a economia digital.

De um lado, plataformas privadas globais que transformaram os pagamentos numa das atividades mais lucrativas do planeta.

Do outro, Estados que começam a perceber que determinadas infraestruturas podem ser tratadas como estradas, portos ou redes elétricas: bens públicos sobre os quais se constrói a atividade econômica.

É por isso que a reportagem do Financial Times importa tanto. Ela mostra que o Pix já não é visto apenas como uma solução brasileira. Tornou-se um modelo observado pela Europa, pelo Mercosul e por países que procuram reduzir dependências tecnológicas.

O que está em causa é a possibilidade de outras nações concluírem que também podem construir infraestruturas digitais soberanas.

No século XXI, o poder mede-se cada vez menos apenas pelo tamanho dos exércitos e cada vez mais pela capacidade de definir as regras invisíveis que organizam o dinheiro, os dados e a confiança.

Às vezes, é preciso um jornal estrangeiro olhar para uma barraca de pipocas no Rio para o Brasil perceber a dimensão mundial daquilo que criou.

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