
Viajar já foi uma forma de fuga. Hoje, tornou-se um modo de pertença. Cada vez mais, o turismo deixa de ser o gesto de quem visita e passa a ser o de quem se reconhece — nas palavras, nos sabores, nos gestos e nos sons.
É nesse cruzamento entre identidade e hospitalidade que o grupo português Vila Galé construiu um império discreto e coerente, que parece dizer, com cada novo hotel, que a língua portuguesa é também um território. E, como todo território, merece ser habitado com beleza, inteligência e propósito.
Belém, no Pará, em vésperas de receber a COP, é o mais recente "X" no mapa mundi da maior cadeia de resorts do Brasil — E "este hotel", diz Jorge Rebelo de Almeida, presidente e principal acionista do grupo Luso Brasileiro "é uma resposta em tempo recorde a um pedido do presidente Lula" para aumentar a capacidade hoteleira o maior evento de sempre nessa capital do Norte.
Fundada em 1986, a Vila Galé cresceu de uma praia no Algarve para um mapa que hoje se estende por Portugal, Brasil, Cuba e Espanha. São 52 hotéis, mais de 10 mil quartos e uma ideia que vai muito além da hotelaria: a de que a cultura pode ser o eixo de um projeto econômico sustentável.
O turismo, quando feito com alma, é um ato de cultura — e, quando feito com língua, é um ato de futuro. Jorge Rebelo, compreendeu algo que os economistas ainda tardam a formular: não se exporta um país, exporta-se uma forma de sentir o mundo.
Enquanto o planeta se fragmenta entre crises climáticas, polarizações políticas e a substituição dos vínculos humanos por algoritmos, a Vila Galé propõe um modelo diferente — um capitalismo afetivo que investe em reabilitar patrimônios históricos, valorizar a gastronomia local e integrar a natureza no centro do negócio.
Os seus vinhos, azeites e resorts são mais do que produtos: são embaixadas sensoriais de uma civilização. Produzir vinho no Alentejo e hospedagem na Amazônia não é apenas estratégia; é afirmação simbólica de uma comunidade que fala português, do Minho a Manaus, de Santiago de Cuba a Fortaleza.
Essa rede de lugares é, no fundo, uma cartografia emocional da lusofonia. E o que ela revela é que o turismo pode ser também diplomacia. Ao recuperar conventos, quintas e palácios, o grupo reencena a memória comum de povos que aprenderam a sobreviver pela palavra. Não é por acaso que muitos dos hotéis se chamam “Collection” — cada um é uma coleção de histórias, de geografias e de vozes. Assim como a língua portuguesa, que nunca foi de um só país, mas de uma constelação de afetos.
A globalização, tantas vezes acusada de uniformizar o mundo, encontra aqui um antídoto: a hospitalidade que preserva a diferença. A cada hóspede que chega a um hotel Vila Galé no Brasil, há um português que é lembrado; a cada hóspede que chega a Portugal, há um brasileiro que é acolhido. Essa reciprocidade é o coração do projeto — uma forma silenciosa e elegante de afirmar que o Atlântico é um espaço comum, não um oceano que separa.
Se é verdade que os impérios caem, as línguas ficam. E se há uma ideia que o futuro lusófono precisa entender é esta: a língua não é apenas um meio de comunicação, mas um destino partilhado. O turismo pode ser a sua rota. Quando se ergue um hotel na Amazônia ou no Douro, não se constrói apenas um edifício — ergue-se uma ponte sobre séculos de história, um gesto que diz, em silêncio: “sempre perto de si”.

