José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

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Unesp aos 50: quando o Estado assume a ciência como destino

Ao reconhecer a Unesp como a primeira universidade moderna do Brasil, o Governo de São Paulo não celebrou apenas um aniversário, assumiu um modelo de futuro

Letreiro da Unesp
Criada em 1976, a Unesp possui uma estrutura multicâmpus com 24 campi espalhados pelo estado de São Paulo.  • Divulgação/Governo de SP
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O que se viu na solenidade dos 50 anos da Universidade Estadual Paulista foi mais do que um rito institucional. Ali se afirmou, de forma explícita, uma ideia de país. Ao dizer que a Unesp representa o ensino em ambiente de pesquisa e ao garantir financiamento contínuo e de longo prazo, o Estado de São Paulo reafirmou que universidade pública de pesquisa não é um luxo — é infraestrutura estratégica.

Criada em 1976, a Unesp nasce já moderna. Não como réplica tardia do modelo europeu clássico, mas como arquitetura institucional voltada para o território, para a diversidade e para a integração entre ensino, pesquisa e extensão. O seu desenho multicampi — presente em dezenas de cidades — não fragmentou o conhecimento; ao contrário, democratizou o acesso à ciência e distribuiu inteligência pelo Estado, criando uma malha de produção acadêmica conectada às realidades locais. É isso que diferencia uma universidade administrativa de uma universidade de pesquisa.

Quando o secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação, Vahan Agopyan, afirma que a Unesp está entre as melhores universidades do mundo e que continuará a receber apoio estatal consistente, ele está a dizer algo ainda mais profundo: São Paulo escolheu competir pelo conhecimento. Em tempos de cortes globais na educação superior, de precarização do trabalho científico e de ataques à universidade pública, essa posição não é neutra — é civilizatória.

Ensinar em ambiente de pesquisa significa formar estudantes que não apenas reproduzem conteúdos, mas aprendem a formular problemas, a lidar com a complexidade e a produzir soluções. Significa compreender que inovação não nasce por decreto, mas da convivência entre áreas, da liberdade intelectual e da estabilidade institucional. A multidisciplinaridade da Unesp — das humanidades às engenharias, da saúde às artes — não é um ornamento: é o seu motor.

O reconhecimento público desse modelo transforma a comemoração num gesto político de longo alcance. Ao financiar a Unesp de forma sólida e duradoura, o Estado sinaliza que o desenvolvimento não virá apenas de incentivos fiscais ou infraestrutura física, mas da infraestrutura invisível do conhecimento, aquela que forma pessoas, cria pensamento crítico e sustenta a inovação ao longo de décadas.

Aos 50 anos, a Unesp não é apenas memória. É projeto. E o que São Paulo disse, em alto e bom som, é que sem universidade pública de pesquisa não há futuro competitivo, democrático nem sustentável. O resto é retórica.