A Flip: quando Paraty vira Babel
Se os festivais forem pequenos demais, deixarão sempre de fora quem mais precisa estar dentro; a chave não está na redução, mas na permeabilidade

Paraty. Meio dia. Flip. Fecho os olhos e caminho às cegas, tentando orientar-me através de silêncios quase invisíveis. Só assim consigo não tropeçar nas pedras da calçada. Nada é tão barulhento quanto uma ideia nova cochichando no meio da multidão.
Os festivais literários vivem hoje uma contradição tão antiga quanto a própria literatura: querem ser lugar de silêncio e, ao mesmo tempo, de celebração. Palco e biblioteca, selfie e silêncio, pensamento profundo e programação em tempo real. Pedem atenção, mas também oferecem distração. E talvez seja exatamente esse paradoxo que os torne necessários — e insuportáveis — ao mesmo tempo.
A virtude dos grandes festivais, como a Flip, está na sua força centrífuga: atraem para um só ponto do mapa uma constelação de saberes que jamais se encontrariam espontaneamente. É ali que um ensaísta moçambicano se cruza com uma filósofa da periferia de São Paulo. É ali que a voz de uma poeta marginal ecoa na mesma rua em que se apresenta um Nobel de Literatura. Nenhuma universidade, nenhuma conferência internacional ousa tanto. E nesse sentido, sim: os festivais são a Disneylândia do pensamento — porque criam um mundo possível onde o improvável é norma.
Mas é também verdade que esses encontros, por vezes, sufocam a escuta. Há tanto acontecendo, tanta superposição de mesas, conversas, vozes e lançamentos, que o tempo parece sempre insuficiente. O festival é a metáfora perfeita do tempo digital: fragmentado, simultâneo, fluido. E isso, para muitos, é angústia. Para outros, estímulo. Ninguém sai inteiro. Mas ninguém sai igual.
O defeito, se quisermos chamá-lo assim, está em confundir encontro com presença. Há uma diferença entre estar e se deixar afetar. E muitos festivais — não só em Paraty — correm o risco de se tornarem vitrines: onde a aparência de pensamento vale mais do que a sua experiência. É o risco da curadoria-espetáculo, da mesa com nomes que não conversam entre si, das falas protocolares que mal tocam o papel antes de tocar o palco.
Mas talvez a crítica mais comum — a de que são grandes demais — seja injusta. Porque o mundo é grande. E se os festivais forem pequenos demais, deixarão sempre de fora quem mais precisa estar dentro. A chave não está na redução, mas na permeabilidade. Em multiplicar formatos, criar refúgios dentro da festa, criar outras festas, ouvir os sussurros tanto quanto os gritos. Um festival não precisa escolher entre ser oásis ou praça: pode ser os dois, desde que saiba alternar os ritmos.
O que nos cabe, então, é fazer com que o ruído tenha intervalo, que o encontro tenha consequência, que o excesso tenha cura na escuta. Um bom festival não é o que reúne os melhores nomes, mas o que transforma os que vieram ouvir.
No fundo, todo festival literário deveria lembrar um bom romance: surpreendente, imperfeito, cheio de digressões — e, ainda assim, capaz de nos manter dentro dele até o fim. Mesmo que chova. Mesmo que inunde. Mesmo que falte lugar na sala. Mesmo que nos percamos um pouco — para nos encontrarmos depois, na dobra de uma frase.
