José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

A guerra que o mundo finge não ver

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O ataque de Israel contra instalações nucleares do Irã e a retaliação iraniana com mísseis sobre Tel Aviv não são propriamente novos acontecimentos. São ecos de uma história antiga — uma narrativa tão repetida que já parece gravada no DNA da política do Oriente Médio. São cenas que se repetem com novos drones, novas câmeras, novos discursos, mas a mesma lógica do medo, da honra ferida e da resposta calculada com precisão cirúrgica e intenção ancestral.

As manchetes internacionais gritam novidade — “Israel ataca”, “Irã revida” — mas o conteúdo murmura um enredo conhecido: ameaça nuclear, vingança seletiva, indignação internacional, chamadas para acordos que ninguém quer realmente assinar. Entre explosões em bases militares e declarações presidenciais no estilo reality show, o que se reafirma é a velha certeza de que o poder, quando ferido, sangra para provar que está vivo.

Há algo de eterno nessa engrenagem. Não no sentido de grandeza, mas de ciclo trágico. O Oriente Médio já foi o berço das primeiras palavras, das primeiras cidades, das primeiras leis. Hoje é também um cemitério de promessas. Israel e Irã, dois países que encarnam visões diferentes de modernidade, parecem mais interessados em vencer o passado do que em construir o futuro. A cada míssil lançado, não se destrói apenas uma base: enterra-se, mais uma vez, a ideia de convivência entre diferentes.

É fácil ver nos mísseis traçados de luz sobre Tel Aviv e nos clarões sobre Teerã o espetáculo tecnológico da guerra. Difícil é encontrar ali a criança que chora, o velho que não consegue correr, o silêncio súbito de uma biblioteca, a poeira que engole as palavras de um poema interrompido. Esses não aparecem na imprensa. Mas são eles que tornam cada conflito igual a todos os anteriores. As bombas, por mais sofisticadas que sejam, nunca caem apenas sobre alvos militares — caem sobre biografias, sobre mães que rezam, sobre futuros que não nascerão.

Como romper esse transe de repetição? A tecnologia avança, mas a política tropeça nos mesmos escombros. Os líderes mudam, as armas mudam, até os algoritmos mudam. Mas a lógica do conflito eterno — esse instinto de escavar trincheiras em vez de pontes — essa permanece. E permanecerá enquanto os países acreditarem que seu destino é sobreviver ao outro, em vez de coexistir com ele.

Não há novidade nesta guerra. Só há insistência. E ela, como todas as insistências humanas que se afastam do diálogo, acabará sempre no mesmo lugar: entre escombros.