José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

Ainda há lugar para quem sonha com Portugal

Portugal continua a ser o país onde o tempo parece caber dentro da vida. E quem o escolhe com serenidade, sem ilusões fáceis, acaba encontrando mais do que uma morada: encontra um espelho de si mesmo

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Apesar do barulho das manchetes, Portugal continua aberto — e talvez mais do que nunca para quem chega com propósito. A nova Lei dos Estrangeiros assusta à primeira leitura, com suas exigências de vistos prévios e prazos ampliados, mas, lida com calma, ela não fecha portas: apenas pede que se bata com cuidado. Há um tempo novo se desenhando, e os brasileiros que já estão no processo de legalização são, paradoxalmente, os mais bem posicionados para atravessar essa transição.

O país que agora reforça suas fronteiras é o mesmo que, nos últimos anos, aprendeu a conviver com o sotaque brasileiro nas escolas, nos hospitais, nos cafés e nas startups. A relação entre os dois povos não se apaga com uma canetada. Portugal sabe o quanto deve à vitalidade que o Brasil trouxe às suas cidades, à juventude que manteve viva a economia e à mistura que reacendeu o cotidiano. A nova lei, por mais dura que pareça, nasce também de um desejo de reorganizar o caos administrativo que tantos brasileiros sofreram — filas intermináveis, processos perdidos, respostas que nunca vinham. Se funcionar, pode, enfim, transformar a imigração num processo digno.

Os que já deram entrada no pedido de residência têm vantagem. Seus processos permanecem válidos, e o governo promete prioridade na regularização. A criação da AIMA — a nova agência de migrações — pretende justamente resolver o que antes era um labirinto sem saída. E há sinais de que a relação especial entre Portugal e os países da CPLP, especialmente o Brasil, será mantida. O tempo para a cidadania pode até alongar-se, mas o vínculo de língua e história continua a pesar a favor.

Mais do que um obstáculo, a nova lei pode ser uma oportunidade de profissionalizar o sonho. O improviso que antes permitia chegar com a mala e a coragem deu lugar a uma etapa de planejamento: preparar documentos, comprovar renda, organizar moradia. É o preço da estabilidade — e, em certo sentido, uma lição útil num mundo em que quase tudo pede estrutura. Quem se organiza agora planta raízes mais firmes e encontra um Portugal mais preparado para acolher.

Há também um outro lado que raramente aparece: o amadurecimento do próprio Brasil como país de partida. Cada vez mais brasileiros vêm para Portugal não por fuga, mas por escolha. Têm formação, objetivos claros, consciência do que podem oferecer. São artistas, engenheiros, professores, programadores. Vêm para somar, não para sobreviver. E essa diferença muda tudo: o brasileiro que chega hoje já não é um estrangeiro à procura de abrigo, mas um cidadão global que atravessa o Atlântico em busca de sentido.

Portugal continua a ser o país onde o tempo parece caber dentro da vida. E quem o escolhe com serenidade, sem ilusões fáceis, acaba encontrando mais do que uma morada: encontra um espelho de si mesmo. Porque, no fundo, o verdadeiro visto é o que se conquista no olhar — aquele que diz que, entre Brasil e Portugal, há mais que as fronteiras desta nova lei: há pertença histórica e emocional.