José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

Análise: António José Seguro é o presidente certo na hora certa

António José Seguro, candidato de esquerda, foi eleito à presidência de Portugal neste domingo (8)

António José Seguro vota em segundo turno das eleições presidenciais de Portugal  • Reuters
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Há políticos que se constroem pelo palco. Outros, pelo tempo. António José Seguro pertence à segunda categoria. Fora do centro do poder há anos, regressa à política pela porta grande, e com uma credencial cada vez mais escassa na Europa: a de um democrata testado pela adversidade e sem dependência do espetáculo.

Seguro não é um produto de marketing político. É um homem do interior de Portugal, formado na política de base, longe da academia e distante do brilho midiático. Nesse traço, está nos antípodas de Marcelo Rebelo de Sousa, o atual presidente: onde Marcelo é comentário e presença permanente, Seguro é silêncio estratégico e densidade política. Um representa a pedagogia pública do regime; o outro, a ética do seu funcionamento.

Como líder do Partido Socialista, Seguro fez uma escolha que o marcou — e o engrandeceu. Aceitou eleições diretas internas quando não era obrigado a fazê-lo. O gesto custou-lhe o cargo de primeiro-ministro em potência, mas fixou algo mais duradouro: a imagem de um democrata que coloca o processo acima do cálculo pessoal. Num tempo em que líderes se agarram às regras quando lhes convêm e as rasgam quando atrapalham, essa decisão envelheceu bem.

Os números confirmam a consistência. Sob a sua liderança, o PS obteve o melhor resultado autárquico de sempre — nove câmaras conquistadas — sinal de capilaridade territorial, trabalho de base e capacidade de agregar. Seguro sempre entendeu o poder local como escola da República. É ali que se mede a política que resolve problemas concretos, não a que vive de frases.

Para o público brasileiro, o seu perfil ajuda a ler Portugal de hoje. Num momento em que o país procura estabilidade institucional, previsibilidade europeia e sobriedade democrática, Seguro surge como um presidente possível — e necessário. Não promete carisma. Promete método. Não oferece frases para redes sociais. Oferece confiança no sistema.

A presidência portuguesa não é um cargo executivo, mas é um posto de influência moral e política decisivo. Exige alguém que saiba quando falar e, sobretudo, quando não falar. António José Seguro, o “Tozé” — como seus amigos e companheiros da política o tratam — passou anos fora dos palcos. Talvez por isso compreenda melhor que, nas democracias maduras, o tempo certo vale mais do que o tempo todo.