José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

Análise: Atacar o Irã é um erro que se repete

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Como longamente anunciado, os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã. Num sábado e durante o ramadã. O objetivo declarado foi conter capacidades militares e enviar um sinal inequívoco de dissuasão. Infelizmente, nada de novo.

O regime iraniano, estruturado desde 1979 sob a tutela religiosa do poder político, atravessa uma fase de grande vulnerabilidade com o envelhecimento do seu guia supremo e o agravamento das tensões regionais.

O sistema está desgastado, há revolta nas ruas e anúncios de regresso do antigo poder do Xá Reza Palevi. Mas o que acontece se o aiatolá Ali Khamenei desaparecer sem uma arquitetura clara de transição?

O homem é o único ser que insiste em ignorar a própria experiência. Em 2003, a queda de Saddam Hussein dissolveu o aparelho de Estado iraquiano e abriu caminho à fragmentação que alimentou o Estado Islâmico.

O Irã tem outra densidade histórica, uma burocracia mais sólida e uma identidade civilizacional milenar, além de uma rede regional consolidada pela Guarda Revolucionária. Ainda assim, a concentração de poder num eixo central torna a sucessão o ponto mais frágil do sistema.

Daqui a 30 anos, talvez se conclua que esse foi o erro estratégico: confundir enfraquecimento com estabilidade. Regimes personalizados não se desmontam como estruturas técnicas; quando sofrem um abalo, eles redistribuem poder de forma imprevisível.

A Guarda Revolucionária Iraniana e os seus generais — como antes aconteceu com a Guarda Republicana no Iraque — pode deixar de ser instituição central do regime para se transformar em instrumento terror.

Correntes reformistas podem até ganhar voz, mas sem domínio sobre os mecanismos coercivos podem surgir novas forças regionais agindo com autonomia, ampliando a instabilidade.

O risco maior desse ataque não reside no colapso imediato, mas nessa transição desordenada. No futuro, historiadores poderão escrever que este momento marcou o início de uma década de reconfiguração do poder no Médio Oriente — ou poderão registrá-lo como mais uma oportunidade perdida de construir uma transição institucional negociada.

A diferença entre esses dois desfechos dependerá menos da capacidade de atacar hoje, e mais da capacidade de preparar o dia seguinte.

Derrubar ou fragilizar o regime de Ali Khamenei sem plano político para o substituir cria vácuos que rapidamente são ocupados por forças menos previsíveis. O Irã do futuro começa agora, mas o que agora acontece não ficará contido nas suas fronteiras.

Será um problema do mundo.