José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

Análise: O maior aliado de Trump perde na Europa

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A queda de Viktor Orbán na Hungria não é apenas uma derrota doméstica. É uma derrota internacional do método político que Donald Trump ajudou a legitimar e a espalhar: nacionalismo agressivo, guerra cultural permanente, pressão sobre instituições, desconfiança contra a imprensa, hostilidade ao multilateralismo e culto da força como linguagem de governo.

Orbán não era um aliado periférico. Era um modelo. Por isso, a sua derrota tem peso muito maior do que o tamanho da Hungria.

Durante anos, Budapeste funcionou como vitrine da chamada “democracia iliberal”. Trump admirava Orbán porque via nele uma versão europeia do mesmo impulso político: governar dividindo, mobilizar pelo ressentimento e apresentar qualquer freio institucional como traição das elites.

A derrota agora expõe uma verdade simples: esse tipo de poder parece sólido até ao dia em que a sociedade se cansa do preço. E o preço, na Hungria, deixou de ser abstrato. Virou inflação, estagnação, fadiga moral, suspeita de corrupção e perda de horizonte.

Há outro detalhe decisivo. Orbán não perdeu para uma esquerda identitária nem para uma revolta difusa. Perdeu para uma alternativa de centro-direita, conservadora em vários pontos, mas disposta a recolocar a Hungria dentro de um horizonte europeu, institucional e minimamente decente. Isso torna a derrota ainda mais eloquente. O eleitorado não rejeitou apenas um partido. Rejeitou a captura do Estado como projeto de poder permanente.

A América do Sul faria bem em prestar atenção. O continente conhece de sobra o fascínio da política messiânica, o uso do conflito como combustível diário e a tentação de transformar adversários em inimigos existenciais. Também conhece o custo disso: economias nervosas, instituições corroídas, polarização improdutiva e sociedades que passam a discutir personalidades quando deveriam discutir futuro. A Hungria mostra que a exaustão democrática não é destino. Pode haver reação. Pode haver correção. Pode haver limite.

No Brasil, na Argentina, no Chile, na Colômbia e em vários outros países sul-americanos, a lição é clara: nenhum campo político deveria confiar para sempre na força do marketing identitário, no medo como método ou na ideia de que basta controlar a narrativa para controlar a realidade.

A vida real acaba sempre por cobrar. Cobra no supermercado, cobra no emprego, cobra na confiança pública, cobra na paciência das classes médias e cobra sobretudo nos jovens, que um dia deixam de aceitar a herança emocional de guerras que não escolheram travar.

A derrota de Orbán também enfraquece o trumpismo fora dos Estados Unidos. Mostra que o mundo não está condenado a escolher entre desordem populista e impotência liberal. Existe um espaço político para a reconstrução. Um espaço mais sóbrio, mais institucional e mais adulto. Isso interessa à Europa, mas interessa igualmente à América do Sul, que precisa menos de salvadores e mais de governos capazes de entregar ordem, crescimento e dignidade sem destruir as regras do jogo.

A notícia que saiu de Budapeste é, no fundo, esta: um aliado de Trump caiu porque já não conseguia convencer a sociedade de que a tensão permanente valia mais do que a vida concreta.

Quando isso acontece, o populismo deixa de parecer força histórica e volta a ser aquilo que muitas vezes realmente é: um atalho barulhento para o cansaço nacional.