José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

Após décadas de contenção militar, Alemanha volta a pensar em prontidão

A Alemanha voltou a fazer uma pergunta que a Europa julgava ter enterrado com o século XX: onde estão, afinal, os homens de que o Estado pode precisar?

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A Alemanha decidiu apertar o vínculo entre cidadania, território e disponibilidade militar. Homens em idade de serviço passam a ser rastreados com mais rigor quando pretendem permanecer longos períodos fora do país. O gesto vem embalado em linguagem administrativa, mas pertence a outra gramática: a da prontidão.

A pergunta que importa é simples e dura: quando um Estado começa a contar novamente os corpos disponíveis, o que mudou de facto no seu horizonte político? A resposta exige memória. Em 1945, os Aliados impuseram à Alemanha a desmilitarização completa e o controlo da sua capacidade de guerra. A decisão não era técnica. Era civilizacional. O militarismo alemão deixara de ser um problema nacional e passara a ser uma advertência histórica para a Europa.

A seguir veio a Guerra Fria, e a moral foi cedendo lugar à estratégia. Em 1955, a Alemanha Ocidental entrou na Otan, a ocupação ocidental terminou e nasceu a Bundeswehr. O que fora uma interdição absoluta transformou-se num rearmamento vigiado, inserido numa arquitetura atlântica desenhada para impedir que a força alemã voltasse a existir sem amarras. A lição permanecia: a Alemanha podia ter Exército, mas o Exército não podia voltar a ter a Alemanha.

Em 1990, o Tratado Dois Mais Quatro restituiu soberania plena à Alemanha reunificada, confirmou fronteiras, consolidou a renúncia a armas nucleares, biológicas e químicas e preservou limites que davam forma jurídica a um trauma histórico. Durante décadas, esse edifício sustentou uma cultura política de contenção: a força existia, mas sob suspeita; a defesa era legítima, mas nunca celebrada onde a memória funcionava como travão.

É precisamente esse travão que começa agora a afrouxar. A nova disciplina sobre ausências prolongadas ao exterior não anuncia por si só uma militarização agressiva. Anuncia algo mais subtil e mais profundo: a normalização mental da hipótese de mobilização. A guerra da Ucrânia, a vulnerabilidade logística europeia e a pressão para reforçar efetivos fizeram regressar ao centro do debate uma ideia que — como tantas outras que agora surgem de novo —  parecia arquivada no século XX: a liberdade individual tem prazo curto quando a segurança estratégica entra na sala.

A Europa passa, assim, do conforto regulatório para a pedagogia do risco. E a Alemanha, que durante oitenta anos foi o laboratório da autocontenção militar, começa a ensinar outra coisa aos seus cidadãos: que a paz já não se administra apenas com comércio, normas e memória. Administra-se também com cadastro, reserva, logística e disponibilidade humana. O sinal é esse. O resto virá por acréscimo.