Defender a universidade é defender a civilização
A liberdade universitária nunca foi confortável; ela é, por natureza, incerta, desigual, barulhenta, porque o conhecimento verdadeiro nasce do conflito

Quando foi que passamos a achar razoável que uma universidade só exista se for funcional ao poder? Quando começámos a aceitar que o financiamento público dependa da obediência ideológica? Quando deixamos de nos espantar com a ideia de que liberdade significa, na verdade, censura?
Há algo de profundamente inquietante na naturalidade com que se atacam hoje as universidades. Donald Trump, ao sugerir que instituições públicas de ensino superior nos Estados Unidos sejam “reformadas” para refletir a agenda de governo, não inaugura um processo — apenas o expõe com brutal franqueza. O verdadeiro escândalo não é o ataque em si. É o silêncio ao redor dele. É o consentimento implícito de uma sociedade que vai se acostumando à ideia de uma universidade domesticada.
Não se trata, é claro, de uma repressão inédita. Ao longo da história, tentou-se controlar o pensamento universitário com cruzes, com fardas, com dogmas morais. O que muda agora é o método: em vez de queimar livros, congela-se orçamentos. Em vez de impor silêncios, exige-se “pluralismo”. Em vez de invadir com tanques, impõe-se austeridade e condicionantes fiscais. O controle vem disfarçado de equilíbrio. A coerção, de razoabilidade.
E tudo isso se faz, ironicamente, em nome da democracia. Pede-se “diversidade de ideias”, como se o conhecimento fosse um palanque. Pede-se “neutralidade”, como se a função da universidade fosse confirmar consensos e não desafiá-los. O que se quer não é pluralidade — é previsibilidade. Professores que não incomodem. Alunos que não protestem. Campi que sejam extensões do gabinete de governo.
Só que é da universidade livre que nasceram algumas das mais importantes contribuições à sociedade. Exemplos simples: foi na USP, ainda sob a tensão da ditadura, que economistas propuseram políticas públicas que, anos depois, tirariam milhões da pobreza; foi na Universidade Federal do Ceará que, nos anos 1980, se desenvolveu a tecnologia social da cisterna de placas — hoje replicada em todo o semiárido brasileiro. Em Portugal, foi nas universidades públicas que investigadores, em plena pandemia, criaram modelos matemáticos decisivos para antecipar picos de contágio e orientar políticas de vacinação.
A liberdade universitária nunca foi confortável. Ela é, por natureza, incerta, desigual, barulhenta. Porque o conhecimento verdadeiro nasce do conflito — da possibilidade de errar, de discordar, de refazer. O que se pretende hoje não é garantir liberdade, mas eliminar riscos. Substituir o pensamento pela fidelidade. A dúvida pela função. A crítica pelo conformismo.
Defender a universidade, neste contexto, não é defender uma corporação — é defender o espaço simbólico onde o pensamento pode existir sem pedir licença. Onde o saber não é útil apenas quando serve. Onde a ciência, a arte, o debate e o dissenso ainda têm lugar.
Porque o dia em que a universidade servir apenas para repetir o que o poder quer ouvir — esse será o dia em que ela deixará de servir para qualquer outra coisa. O dia que marcará o início oficial do retrocesso civilizatório.
