Harvard olha para Lisboa
Brasil deveria observar movimento da instituição americana em relação à Nova SBE, na região de Lisboa, sem condescendência

A Nova SBE, em Oeiras, na região de Lisboa, Portugal, foi uma das escolas escolhidas pela Harvard Business School para estudar a possibilidade de ensinar o seu MBA fora dos Estados Unidos.
Harvard, segundo apurou o Financial Times, queria saber se Portugal poderia receber os seus alunos caso o próprio governo americano deixasse de recebê-los.
Para além de Portugal, em 2025, a escola americana conversou também com o IMD na Suíça, a London Business School no Reino Unido e a Universidade de Toronto no Canadá. Como a ameaça de Donald Trump foi bloqueada pelos tribunais, o projeto não avançou. Ainda assim, a escolha dos interlocutores diz muito.
Harvard não procurou somente edifícios. Procurou jurisdições confiáveis, instituições respeitadas e cidades capazes de receber talento global.
A Nova SBE entrou na lista porque Portugal converteu segurança, abertura internacional e qualidade acadêmica em ativos estratégicos.
Convém não exagerar. Harvard não decidiu instalar o MBA em Lisboa nem selecionou formalmente a Nova SBE para executá-lo. Foram conversas preliminares. Mas seria provinciano diminuir o significado do contato.
Quando uma universidade daquela dimensão desenha um plano de contingência, não telefona para quem deseja ser relevante. Telefona para quem já entrou no radar.
O episódio expõe uma ironia maior. Durante décadas, os Estados Unidos construíram poder importando inteligência. Estudantes estrangeiros pagaram universidades, alimentaram laboratórios, fundaram empresas e ampliaram a influência americana.
Trump tentou proteger essa influência fechando a porta. Harvard respondeu estudando mudar a sala de aula de país.
Naturalmente o Estado tem o direito de fiscalizar vistos e exigir transparência. Uma universidade como Harvard concentra dinheiro e poder suficientes para não ser tratada como vítima inocente. Mas há uma diferença entre regular uma instituição e transformar estudantes em instrumentos de retaliação política.
E a fatura apareceu. Segundo relatório do IEE (Instituto de Educação Internacional), as novas matrículas internacionais nos Estados Unidos caíram 17% no outono de 2025; na pós-graduação, 12%.
No ano anterior, esses estudantes movimentaram US$ 42,9 bilhões e sustentaram mais de 355 mil empregos, de acordo com dados da NAFSA (Associação de Educadores Internacionais) e JB International.
Uma família que investe dois anos e cerca de US$ 170 mil nas anuidades de Harvard não compra apenas aulas. Compra estabilidade, rede e futuro. Se o visto se torna uma aposta política, Lisboa funciona como seguro contra o risco americano.
Mesmo que Portugal ainda não tenha ganho Harvard. Ganhou algo mais importante: o direito de ser considerado. A Nova SBE demonstra que um país pequeno pode disputar conhecimento, capital e reputação quando oferece aquilo que as potências começam a destruir dentro de casa: previsibilidade.
O Brasil deveria observar este movimento sem condescendência. Tem escala, universidades, empresas e uma posição atlântica incomparavelmente maiores. Mas ainda trata internacionalização acadêmica como intercâmbio, cerimônia e fotografia.
Sem vistos rápidos, diplomas conjuntos, ensino multilíngue, financiamento e regras duradouras, continuará enviando os melhores alunos aos centros de poder, em vez de trazer esses centros para perto deles.
A notícia não é que Harvard quase veio para Portugal. É que Portugal construiu uma instituição para a qual Harvard julgou importante ligar.
Em geopolítica, ser chamado quando o mundo procura um novo endereço já é uma forma de poder.



