Israel no novo mapa da força
Entendimento provisório entre EUA e Irã contrasta com decisão israelense de manter áreas militares ocupadas no Líbano

Estados Unidos e Irã anunciaram um caminho para a paz, mas Israel responde que permanecerá indefinidamente nos territórios que controla. Entre a assinatura diplomática e a ocupação militar, começa a definir-se a ordem internacional que ficará depois desta guerra.
Washington e Teerã chegaram a um entendimento preliminar, mediado pelo Paquistão, para interromper as operações militares e abrir caminho a uma assinatura em Genebra.
Poucas horas depois, o ministro da Defesa israelense, Israel Katz, afirmou que o Exército permanecerá “sem limite de tempo” nas zonas que controla no Líbano, na Síria e em Gaza. A guerra pode estar a caminho de uma pausa; o mapa, não.
A contradição contém mais futuro do que parece. De um lado, EUA e Irã negociam o silêncio das armas. Do outro, Israel transforma posições militares conquistadas durante o conflito em áreas de permanência indefinida.
A palavra escolhida por Katz tem peso jurídico e político: aquilo que começa como “zona de segurança” pode terminar como fronteira imposta pela duração da força.
É aqui que Brasil e Portugal deixam de ser espectadores distantes. Os dois países de língua portuguesa ocupam lugares muito diferentes no sistema internacional — Lisboa está ancorada na União Europeia e na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e em breve terá cadeira no conselho de segurança da ONU; Brasília procura autonomia entre o Ocidente e o Sul Global — mas ambos dependem da mesma infraestrutura invisível: a ideia de que fronteiras não mudam porque um Exército conseguiu permanecer nelas tempo suficiente.
A Carta das Nações Unidas proíbe o uso da força contra a integridade territorial dos Estados. No caso libanês, a Resolução 1701 construiu uma sequência clara entre a retirada israelense, a entrada do Exército do Líbano e a atuação da força das Nações Unidas.
Para o território palestino ocupado, a Corte Internacional de Justiça afirmou, em 2024, que a presença prolongada de Israel é ilegal e deve terminar tão rapidamente quanto possível.
Essas normas não resolvem a guerra sozinhas, mas impedem que seja transformada em escritura de propriedade.

Brasília costuma defender o multilateralismo, mas perde autoridade quando aplica o princípio conforme a conveniência do aliado ou do adversário.
Lisboa, por sua vez, não pode permitir que a solidariedade atlântica se converta em silêncio automático diante de uma política de ocupação permanente. Um país médio que relativiza a soberania dos outros está, sem perceber, a relativizar a própria.
Também seria um erro reduzir o episódio a uma disputa moral sobre Israel. O problema é sistêmico.
A invasão russa da Ucrânia, as ocupações no Oriente Médio, as pressões sobre Taiwan e as ameaças dirigidas a pequenos Estados partilham o mesmo risco: a lenta substituição da fronteira reconhecida pela fronteira armada.
Quando o direito vale apenas onde não encontra resistência militar, reduz-se a protocolo diplomático.
O acordo entre os Estados Unidos e o Irã poderá baixar o preço do petróleo, reabrir rotas marítimas e suspender uma escalada regional. Tudo isso importa. Mas uma paz que aceita territórios ocupados como “zonas de segurança” pode encerrar tiros e inaugurar precedentes.
O ganho imediato chega depressa; a erosão da ordem internacional trabalha em silêncio.
Na próxima sexta-feira (19), em Genebra, diplomatas poderão assinar o fim de uma guerra, mas no terreno, soldados continuarão no lugar.
Nesse intervalo, entre a caneta e a trincheira, o mundo decidirá se a paz restaura fronteiras ou apenas aprova quem conseguiu atravessá-las.



