José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

Mercosul-UE: a oportunidade que Brasil e Portugal não podem desperdiçar

Depois de 25 anos de negociações falhadas, o acordo Mercosul-UE foi finalmente aprovado. Mas a assinatura não é o ponto de chegada, é o início de uma disputa silenciosa sobre quem define as regras do comércio, da sustentabilidade e do poder económico entre Europa, Brasil e América do Sul.

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Após um quarto de século de impasses, a aprovação do tratado entre a União Europeia e o Mercosul foi recebida como vitória diplomática. Mas tratá-lo assim será um erro. Tratados não são troféus: são instrumentos de posicionamento. E, neste caso, o que está em jogo não é apenas comércio, mas o lugar que Brasil e Portugal ocuparão num mundo em reorganização acelerada.

Para o Brasil, o acordo não resolve nada por si só. Ele expõe uma escolha. Ou o país assume que exportar commodities com selo verde não basta — e constrói política industrial, capacidade de rastreio, diplomacia ambiental ativa e estratégia de valor agregado — ou aceitará, com naturalidade perigosa, ser apenas fornecedor confiável num sistema regulado por outros.

A cláusula ambiental, celebrada nos comunicados oficiais, funciona como aquilo que Bruxelas nunca diz em voz alta: um mecanismo permanente de pressão normativa, descrito com clareza nos documentos da Comissão Europeia sobre comércio e sustentabilidade. Quem não liderar a narrativa será administrado por ela.

A Europa, aliás, deixou isso claro ao avançar com o acordo não por generosidade, mas por necessidade estratégica. A fragmentação das cadeias globais, o confronto sino-americano, a instabilidade logística e o fim da proteção do amigo americano, tornaram o Mercosul menos um problema político e mais um ativo produtivo. O que mudou não foi a moral europeia — foi o cálculo.

É aqui que Portugal tem a sua oportunidade histórica do século 21. O país luso tem tudo para se tornar ponte logística, diplomática, jurídica e cultural entre os dois blocos. Portos, língua, arbitragem, serviços, universidades e circulação empresarial colocam Lisboa numa posição que muitos em Bruxelas compreendem melhor do que a própria elite portuguesa. Mas pontes não funcionam por inércia. Exigem estratégia, investimento e visão atlântica clara. Sem isso, Portugal assistirá ao acordo passar por cima de si, como tantos outros momentos da sua história recente.

O risco maior, porém, é simbólico. Tratar este acordo como “inevitável” ou “automaticamente positivo” é abdicar de soberania intelectual. Num mundo em que tratados já não definem apenas tarifas, mas quem escreve as regras, a ausência de projeto é a forma mais elegante de submissão.

O acordo foi aprovado. Agora, Brasil e Portugal precisam decidir se querem participar da história — ou apenas exportar dentro dela.