José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

Moldávia: a batalha invisível pela Europa

O que se joga em Chisinau não é apenas a escolha entre Leste e Oeste, mas entre promessa e ilusão. Vencerá quem conseguir convencer os moldavos de que não estão apenas decidindo por eles, mas por toda a Europa

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A eleição na Moldávia não é apenas um ato democrático interno: é um campo de batalha onde se joga o futuro do continente europeu. Entre Bruxelas e Moscovo, a pequena república de pouco mais de dois milhões de habitantes tornou-se peça central de um tabuleiro que relembra os momentos mais tensos da Guerra Fria.

A União Europeia aposta na consolidação de sua influência através do PAS, partido pró-ocidental da presidente Maia Sandu. Já Moscovo, pela mão de blocos populistas e do partido de esquerda PSRM, procura travar esse movimento, explorando fragilidades sociais, dependência energética e o peso da diáspora. Cada voto moldavo vale mais do que aparenta: é um voto que decide não só a direção de um país, mas o equilíbrio entre dois projetos civilizacionais.

As sondagens revelam um país dividido ao meio. O PAS, mesmo favorito, dificilmente governará sozinho. O Bloco dos Patriotas, alinhado com Moscovo, cresce com discursos de identidade, defesa da “família tradicional” e rejeição às imposições de Bruxelas. No meio, o Bloco Alternativa pode ser o fiel da balança, não por força própria, mas pela capacidade de determinar quem liderará o governo. A incerteza é total.

O risco maior não está apenas em quem ganhará as eleições, mas no que virá depois. Caso forças pró-Rússia ascendam, o processo de adesão à União Europeia pode ser congelado por tempo indefinido, repetindo o que já aconteceu na Geórgia e na Ucrânia. A Moldávia, sem o respaldo europeu, torna-se vulnerável a uma nova ofensiva de Moscovo — não militar, mas política, económica e cultural.

Mas há quem veja a equação de forma inversa. Para muitos moldavos, a promessa europeia continua abstrata, distante da vida quotidiana, marcada por baixos salários, emigração em massa e desigualdade. A Rússia oferece gás barato, acesso a mercados e um discurso que, embora conservador, ressoa junto a uma sociedade fatigada de promessas incumpridas.

No fundo, estas eleições revelam mais sobre a fragilidade do projeto europeu do que sobre a força de Moscovo. A União Europeia tem pressa em integrar a Moldávia, mas enfrenta a sua própria incapacidade de convencer os cidadãos comuns de que a integração trará benefícios concretos. Se a democracia moldava se fragmentar entre promessas ocidentais e dependência oriental, a verdadeira vitória será da desilusão.

A Moldávia vota, mas o eco do seu voto ultrapassa fronteiras. Não é apenas uma disputa legislativa: é um teste à capacidade da Europa de oferecer futuro onde Moscovo insiste em vender passado.