José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

O FBI entre duas eleições

Andrew Bailey deixa a direção adjunta da agência federal a 36 dias das eleições de Meio de Mandato dos Estados Unidos

Compartilhar matéria

Andrew Bailey deixa a direção adjunta do FBI a 36 dias das eleições para o Congresso americano, depois de ter acompanhado, em janeiro, uma operação sobre os votos de 2020, a eleição que o presidente Donald Trump continua a contestar. A sua saída obriga a olhar para as decisões que o FBI ainda terá de tomar antes de os americanos voltarem às urnas.

No dia 3 de novembro, serão eleitos todos os deputados e parte dos senadores, numa votação que determinará quanto apoio Trump terá no Congresso para governar. É neste momento que Bailey anuncia o regresso à família, no Missouri, deixando um cargo que dividia com Christopher Raia e que lhe dava responsabilidades sobre investigações e informações de segurança em todo o país.

Em janeiro, Bailey acompanhou uma busca do FBI em Fulton County, na Geórgia, onde os agentes apreenderam boletins de voto e outros documentos da eleição presidencial de 2020. Trump perdeu nesse estado, e a vitória do ex-presidente Joe Biden foi confirmada por recontagens; ainda assim, a investigação prosseguia em julho, quando num memorando interno a agência pediu reforços às delegações do FBI de todo o país, com a meta de reunir 260 analistas para um caso tratado como prioridade do diretor Kash Patel.

Investigar possíveis crimes eleitorais faz parte das atribuições do FBI, embora a organização e o apuramento das eleições caibam aos estados. A questão é o efeito que uma investigação desta dimensão, centrada na derrota de Trump em 2020, pode ter no ano em que os americanos votam novamente: responsáveis eleitorais de vários estados disseram à Reuters que se preparam para eventuais ações federais e para a desconfiança que essas ações podem provocar entre os eleitores.

A preocupação chegou ao Senado em 15 de setembro, quando Patel prometeu que o FBI não apreenderia materiais da eleição de 2026 antes de a votação terminar. Perante outros senadores, porém, deixou em aberto a possibilidade de enviar agentes aos locais de voto, embora não exista prova de que esteja planeada uma operação desse tipo. O FBI pode ter razões legítimas para proteger eleitores perante ameaças, mas a presença dos seus agentes junto das urnas exige um cuidado particular com a confiança de quem vai votar.

A instituição já conhece o peso de uma decisão tomada perto de uma eleição. Em 2016, onze dias antes da votação presidencial, o então diretor James Comey comunicou ao Congresso novos passos na investigação dos e-mails de Hillary Clinton; mais tarde, o inspetor-geral do Departamento de Justiça não encontrou prova de motivação partidária, mas criticou a forma como Comey se afastou das práticas da instituição. Ficou uma memória que o FBI não pode ignorar: tornar pública uma investigação pode alterar o ambiente eleitoral muito antes de se saber o que essa investigação demonstrou.

Bailey esteve na operação da Geórgia e, ao anunciar a saída, declarou confiança em Patel. Há relatos de atritos entre ambos, mas nenhuma prova de que se tenha demitido por discordar desta investigação, pelo que seria errado transformar a sua saída numa dissidência que as fontes não demonstram. O que importa agora é saber quem tomará as próximas decisões sobre Fulton County e se conseguirá conduzir uma investigação sobre os votos de 2020 sem alimentar a suspeita em torno dos votos que serão depositados em novembro.