José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

O futuro cabe na palma da mão

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Uma das decisões mais revolucionárias do ano não saiu de Davos, não foi votada em Bruxelas, não é um míssil na Ucrânia, nem um tarifaço no Brasil. Essa decisão revolucionária veio em um pequeno frasco de 15 mililitros, desenhado para salvar recém-nascidos em regiões onde a malária ainda mata como há cem anos.

A aprovação do primeiro medicamento para bebês com menos de 4,5 kg representa mais do que um avanço científico. É um marco ético. Um ensaio real sobre o que pode ser o futuro quando a ciência se compromete com os esquecidos.

Até agora, os menores entre os pequenos eram tratados com adaptações de remédios destinados a crianças maiores. Uma gambiarra clínica que escondia, sob o manto da técnica, uma brutal desigualdade. Todos sabiam que o risco de overdose ou subdosagem era alto. Mesmo assim, milhões de vidas foram deixadas à mercê de estatísticas. Chamaram isso de “treatment gap”. Na prática, era abandono.

Segundo o último Relatório Anual da Malária, elaborado pela Organização Mundial da Saúde, 620 mil pessoas morreram de malária em 2023, das quais cerca de 580 mil estavam na África. O mais devastador: quase 80% eram crianças com menos de cinco anos. Por trás desses números, há rostos, nomes nunca registrados, vidas que mal começaram.

Desenvolvido pela farmacêutica Novartis em parceria com a organização sem fins lucrativos Medicines for Malaria Venture, o novo medicamento — Riamet Baby, como será conhecido em alguns países — será distribuído com preço reduzido ou gratuitamente nos países mais atingidos. Trinta milhões de recém-nascidos nascem todos os anos em zonas de risco de malária na África. Agora, eles têm uma chance real. E isso muda tudo.

O remédio chega em um momento crítico. A ajuda internacional ao combate à malária caiu, a mudança climática amplia a zona de ação do mosquito, e os Estados Unidos ameaçam cortar parte do financiamento ao programa global. A antítese está posta: enquanto uns avançam com responsabilidade, outros recuam por cálculo político. A equação é perversa: menos dinheiro, mais mortes. A tragédia é previsível — e evitável.

Este frasco mínimo é, portanto, um símbolo máximo. Ele antecipa o tipo de futuro que podemos construir: um em que a inovação tecnológica deixa de ser privilégio e passa a ser reparação. Onde a saúde não é medida por retorno de investimento, mas por impacto humano. Um tempo em que a vida de um recém-nascido africano tem o mesmo valor que a de qualquer outro bebê no mundo. O futuro, às vezes, cabe na palma da mão — mas exige coragem para não escorregar pelos dedos da história.