José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

O óbvio ululante no Alasca

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Trump e Putin reuniram-se no Alasca para falar da guerra na Ucrânia. A Europa, diretamente interessada no assunto, ficou do lado de fora — assistiu pela TV. O encontro foi em base militar, sem líderes europeus, sem perguntas da imprensa e sem acordo. Resultado prático: nenhum cessar-fogo. Resultados simbólicos: Putin ganhou palco; Trump, manchetes; a Europa, a conta.

Enquanto Donald Trump e Vladimir Putin tomavam café com vistas para os caças F-22 em Anchorage, o Velho Continente acompanhava o show pela TV, como quem vê o vizinho negociar o aluguel de sua casa com o inquilino indesejado.

Trump escolheu “receber em casa” sem precisar de Washington — e, para coroar a liturgia, ofereceu a Putin um tour na “Beast”, a limusine presidencial. A imagem valeu mil notas diplomáticas: dois líderes sorrindo, janela afora, enquanto a Europa contava cadeiras que não tinha. Resultado prático? Três horas de conversa e nenhum acordo. Resultado simbólico? Moscou ganhou respeitabilidade de brinde; Trump colheu manchetes de “grande progresso”; Bruxelas ficou com a responsabilidade, sem o microfone.

“E por que no Alasca?” Porque é perto da Sibéria, longe de Bruxelas e ótimo para controlar cenário, segurança e narrativa. Dá para pousar dois chefes de Estado, alinhar jatos de caça ao fundo e, sobretudo, evitar plateias europeias fazendo perguntas difíceis sobre fronteiras, sanções e garantias de segurança. O encontro terminou sem cessar-fogo, mas com a promessa de “consultar líderes europeus”. É como avisar ao maître, depois de pagar a conta, que na próxima se chama o grupo do WhatsApp.

Há quem diga que a Europa foi “poupada” de um possível mau acordo. Pode ser. O problema é pedagógico: se não está à mesa, vira cardápio. A guerra é no quintal europeu, a reconstrução será europeia, os refugiados cruzam fronteiras europeias — e, ainda assim, quando as câmeras ligaram no Ártico, a Europa apareceu como “fonte próxima às conversas”. O óbvio ululante é que segurança continental não se terceiriza; terceirizou, dançou.

Moral da história: no frio de Anchorage, ninguém assinou a paz. Assinalou-se, isto sim, a falta que faz um plano europeu que combine poder militar, energia, indústria de defesa e, sobretudo, vontade política de falar em voz única.

Até lá, outros escolherão a sala, o horário e o enquadramento — e a Europa continuará fazendo o que faz melhor: reagir com indignação muito bem redigida. O mundo, a mídia e os cronistas de bom coração e pena aguçada agradecem a boa prosa; Putin e Trump agradecem o silêncio.