José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

O que 2025 deixa à lusofonia

Brasil e Portugal têm diante de si uma escolha clara: permanecerem ligados apenas pela memória ou assumirem um papel ativo num mundo que já não espera por ninguém

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2025 foi mais que um ano de acontecimentos: foi um ano de revelações. O mundo deixou de fingir que existe uma ordem estável e passou a agir como aquilo que realmente é — um tabuleiro em permanente renegociação. A política internacional entrou numa fase mais crua, menos moral e mais estratégica. E, neste ambiente de fratura, a relação entre Brasil e Portugal ganha densidade geopolítica.

A guerra na Ucrânia consolidou-se como o grande eixo reorganizador do sistema internacional. Energia, inflação, cadeias de abastecimento e alianças passaram a girar em torno dela. Portugal fez a sua escolha sem ambiguidades: alinhamento pleno com a NATO e a União Europeia. O Brasil, sob Luiz Inácio Lula da Silva, optou por um caminho mais sofisticado — o da mediação ativa. Não se trata de neutralidade, mas de leitura histórica: num mundo polarizado, falar com todos é uma forma avançada de exercer poder.

O regresso de Donald Trump à Casa Branca acelerou essa realidade. O multilateralismo quase colapsou e foi rebaixado a instrumento opcional. Clima, direitos humanos e instituições passaram a valer quando convêm. Para a Europa, isso significou insegurança estratégica. Para o Brasil, a confirmação de que autonomia diplomática não é luxo, é necessidade. Para Portugal, um dilema claro: reforçar a âncora europeia sem perder margem de manobra atlântica.

É nesse ponto que a relação luso-brasileira ganha novo sentido. Em 2025, Brasil e Portugal funcionaram como tradutores um do outro em espaços distintos de poder. Portugal abriu portas, mediou percepções e reduziu ruídos em Bruxelas. Tornou o acordo entre Mercosul e União Europeia mais provável. O Brasil ofereceu escala política, densidade diplomática e capacidade de diálogo com o Sul Global. Não é pouco. É, aliás, um ativo raro num mundo de blocos rígidos.

A China avançou com método e silêncio. Angola e Moçambique aprofundaram relações, mas aprenderam rapidamente que dependência não é estratégia. O Corredor do Lobito tornou-se símbolo de uma África lusófona mais consciente do seu valor geopolítico. Aqui, Portugal reaparece como parceiro técnico e político, enquanto o Brasil surge como referência política e diplomática. A língua, pela primeira vez em décadas, voltou a ser vetor de poder.

No Médio Oriente, Gaza expôs o esgotamento moral do sistema internacional. Vetos bloquearam a ação, discursos substituíram decisões. O Brasil tentou recuperar a tradição do equilíbrio; Portugal seguiu a linha europeia; a ONU falou alto — e foi ignorada. Ficou claro que o problema já não é a falta de instituições, mas a ausência de vontade política de respeitá-las.

A COP30, em Belém, reposicionou o Brasil como liderança climática, mas 2025 ensinou uma lição incômoda: sem financiamento real, liderança vira retórica. A África lusófona não pediu aplauso — pediu justiça climática. Portugal e Brasil, juntos, têm aqui uma oportunidade concreta de construir uma agenda comum que vá além do discurso.

Os BRICS expandiram-se e confirmaram o óbvio: o mundo tornou-se multipolar antes de aprender a ser multipolar. O bloco ganhou peso e contradições. Ainda assim, deu ao Brasil uma plataforma única. Portugal, observador atento, percebeu que entender os BRICS passou a ser parte da sua política externa — mesmo permanecendo firmemente europeu.

Na economia, juros altos, fragmentação produtiva e corrida por minerais críticos redesenharam hierarquias. Brasil e Angola ganharam centralidade estratégica. Países menores sentiram o peso da dívida. O crescimento voltou a ser político.

O balanço de 2025 é direto: acabou o tempo da ingenuidade internacional. Quem não transforma relações históricas em estratégia perde relevância. Brasil e Portugal têm diante de si uma escolha clara em 2026: permanecerem ligados apenas pela memória ou assumirem, juntos, um papel ativo num mundo que já não espera por ninguém.