O que desaparece com a morte de Edgar Morin
Morreu o filósofo francês; agora ficamos nós, diante do espelho partido do nosso tempo, com a responsabilidade de não confundir fragmentos com verdade

“O que em mim sente está pensando.”
A frase de Fernando Pessoa poderia servir de porta de entrada para Edgar Morin, porque poucos pensadores do nosso tempo compreenderam tão bem que ver o mundo não é apenas olhar para ele.
É senti-lo, interpretá-lo, desconfiar dele, ligá-lo ao que parece distante, aceitar que a razão sem afeto endurece e que o afeto sem razão se perde.
Morreu aos 104 anos. Mas a idade, aqui, diz pouco. Há homens que vivem muito e atravessam pouco.
Morin atravessou quase tudo: o século das guerras, dos campos de extermínio, das ideologias totais, da bomba atômica, da televisão, da globalização, da ecologia, da internet, da inteligência artificial e da vertigem planetária.
Não foi apenas testemunha. Foi uma espécie rara de sismógrafo moral: registrava os abalos antes de muitos perceberem que a terra já tremia.
O que se apaga com Morin não é uma escola de pensamento. As escolas, muitas vezes, empobrecem os mestres. O que se apaga é uma maneira de ver.
Uma maneira de recusar a cegueira confortável das explicações simples. Uma maneira de dizer que o mundo não cabe no organograma, na planilha, na ideologia, no gabinete do especialista nem na arrogância dos que confundem clareza com amputação.
Morin ensinou-nos que a inteligência moderna, ao dividir tudo para entender melhor, correu o risco de já não compreender nada.
Separou economia de cultura, ciência de ética, indivíduo de sociedade, política de afetos, técnica de vida, humanidade de natureza. Depois, diante das crises, ficou espantada por não conseguir religar os pedaços.
O pensamento complexo não foi, nele, uma complicação académica. Foi uma tentativa de sobrevivência. Pensar é religar. Pensar é ver o fio escondido entre a causa e a consequência, entre o gesto local e o desastre global, entre a decisão íntima e a história coletiva.
Num mundo que recompensa certezas rápidas, Morin foi o pensador da incerteza responsável. Não a incerteza como desculpa para a paralisia, mas como higiene da lucidez.
A sua lição é brutalmente atual: quem não aceita a incerteza entrega-se ao fanatismo; quem não organiza a incerteza entrega-se ao caos. Entre uma coisa e outra, há a estratégia, a prudência, a imaginação, a coragem de mudar de ideia quando o real desmente a teoria.

Também se apaga com ele um humanismo sem ingenuidade. Morin sabia que o ser humano é sapiens e demens, razão e delírio, ternura e violência, cálculo e mito. Por isso não acreditava no moralismo fácil.
A barbárie não estava, para ele, fora da civilização. Podia nascer dentro dela, vestida de método, eficiência, progresso ou pureza. Talvez por isso sua obra seja tão necessária agora, quando tantos querem reduzir o outro a rótulo, algoritmo, inimigo, consumidor, eleitor, estatística ou ameaça.
Ele viu que a Terra não era cenário, mas destino comum.
Viu que a crise ecológica não era apenas ambiental, mas civilizacional. Viu que a democracia não sobreviveria apenas com instituições, se perdesse a capacidade de compreensão. Viu que educar não era despejar conhecimento em cabeças jovens, mas formar mentes capazes de reconhecer o erro, contextualizar os fatos, e assumir a responsabilidade de pertencer à espécie humana.
O século XXI perde, com ele, um dos seus últimos grandes intérpretes nascidos no século XX. Mas perde mais do que um intelectual. Perde um olhar que ainda sabia juntar biblioteca e rua, ciência e poesia, política e biologia, memória e futuro.
Morin não pensava sentado sobre o mundo. Pensava dentro dele. E talvez seja por isso que sua morte nos toque de forma tão particular: porque o mundo que ele tentou ensinar a ver tornou-se ainda mais complexo, mais veloz, mais fragmentado e mais necessitado de inteligências capazes de religar.
O que se apaga com Morin é a presença física de um homem que nos obrigava a desconfiar dos atalhos. Mas permanece a exigência que ele nos deixou: ver o mundo inteiro sem esmagar as partes; ver as partes sem esquecer o todo; ver a humanidade sem apagar a pessoa; ver a pessoa sem esquecer a humanidade.



