José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

Portugal é eleita a economia do ano; o que Brasil pode ganhar com isso?

Ao colocar Portugal no topo das economias avançadas, The Economist não apenas reconhece um sucesso interno, como revela uma oportunidade histórica. Alinhamento entre os dois países pode transformar este momento em plataforma atlântica capaz de definir a geopolítica do século XXI

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Portugal tornou-se capaz de propor a agenda geopolítica do futuro — e esse fato, por si só, altera o lugar do Brasil no mundo. A leitura da The Economist não é apenas um selo econômico: é um sinal de que a língua portuguesa regressa ao tabuleiro estratégico como plataforma de articulação atlântica.

Num século em que as grandes potências se fragmentam e o Sul Global se reposiciona, Portugal e Brasil deixam de ser margens distantes para se tornarem vetores centrais de uma nova geometria internacional.

O que mudou em Portugal é a compreensão de que o Atlântico é novamente decisivo. A sua economia em aceleração, combinada com estabilidade institucional e capacidade de mediação, colocando assim no raro lugar de país que não ameaça ninguém e que pode dialogar com todos.

Mas essa posição só ganha escala quando articulada com o Brasil — a maior democracia do hemisfério sul, potência energética, alimentar, ambiental e cultural, e protagonista inevitável de todas as discussões sobre clima, comércio, tecnologia e segurança. Se atuarem separados, contam pouco; alinhados, redefinem continentes.

É neste quadro que o anúncio do premier português de elevar o salário mínimo luso para 1.600 euros (R$ 10.112) ganha significado geopolítico. Não é apenas política interna. É a tentativa de mostrar ao Brasil, à CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) e ao mundo, que Portugal pretende liderar pelo exemplo, convertendo coesão social em credibilidade estratégica.

Países que valorizam o trabalho convertem-se mais facilmente em polos de investimento, ciência e inovação. Portugal procura sinalizar que está pronto para esse salto — e que quer fazê-lo com parceiros que compartilham língua, história e ambição.

Há, porém, uma dimensão que a The Economist não explicita: a próxima década pertence aos países capazes de articular redes, não blocos. A Europa hesita, os Estados Unidos recolhem-se, a China enfrenta resistências e o sistema internacional procura mediadores com legitimidade múltipla. Aqui, Portugal e Brasil oferecem algo que falta ao mundo: pontes culturais, rotas marítimas, acordos energéticos, diplomacia ambiental, tecnologia emergente e um idioma que é mais ecossistema do que ferramenta.

Esse alinhamento, porém, é tudo menos automático. O Brasil, atolado em ciclos internos de conflito político, ainda não percebeu totalmente o valor estratégico de uma política externa que caminhe em compasso com Portugal — não por nostalgia, mas por futuro.

Portugal, confortável com o reconhecimento europeu, arrisca subestimar a oportunidade histórica de cocriar com o Brasil uma agenda global sobre clima, oceanos, regulação de IA, segurança alimentar e governança digital. A janela está aberta, mas não permanecerá assim por muito tempo.

É por tudo isso, a classificação da The Economist também funciona como um chamamento para ambos os lados do Atlântico lusófono. Portugal só consolidará o seu destino geopolítico se o Brasil participar. E o Brasil só transformará seu peso potencial em poder real se aceitar que nenhuma potência do século XXI age sozinha.

A língua portuguesa pode ser a plataforma de um novo corredor atlântico — económico, cultural, ambiental e tecnológico — ou pode continuar a ser apenas a memória de uma promessa. O futuro depende da coragem com que Portugal e Brasil decidirem caminhar juntos.