José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

Portugal, país aberto

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Como uma criança que, ao chegar, transforma a casa e obriga todos a ver o mundo com outros olhos, Portugal enfrenta o mesmo dilema que atravessa séculos e nações: fechar-se para se proteger ou abrir-se para crescer.

A decisão do Tribunal Constitucional luso de travar pontos centrais da nova lei anti-imigração não foi apenas um gesto técnico; foi uma afirmação de identidade. Ao considerar inconstitucionais medidas que dificultavam o reagrupamento familiar e restringiam o acesso à justiça, o país reafirmou um valor que o tempo e as crises insistem em pôr à prova: a capacidade de acolher.

A história portuguesa é tecida por idas e vindas. Os portugueses partiram em massa para o Brasil e para França em busca de oportunidades; foram porto seguro para retornados após a descolonização em África; e, nas últimas décadas, tornaram-se destino de quem chega para trabalhar, estudar e construir família.

Esta alternância entre partida e chegada é mais que um ciclo econômico — é um traço do caráter nacional dos portugueses. Uma lei que dificulte reencontros e amplie distâncias não ameaça apenas indivíduos, ela com certeza desafia esse patrimônio cultural.

Os atuais defensores de fronteiras mais rígidas argumentam com a proteção do emprego, da segurança e da “identidade nacional”. É um discurso que encontra eco em tempos de medo e instabilidade. Mas a experiência histórica mostra que a prosperidade raramente nasce do isolamento.

Comunidades abertas ao intercâmbio de pessoas e ideias ampliam a sua criatividade, dinamizam a economia e fortalecem a coesão social. Quando se fecha a porta ao outro, fecha-se também uma janela para o futuro.

A decisão do Supremo Tribunal luso não apaga o debate. Há pressões políticas, eleitorais e económicas para retomar medidas mais duras. Mas o gesto de hoje lembra que o equilíbrio entre soberania e acolhimento não se mede apenas em votos — mede-se no tipo de país que se escolhe ser. Portugal foi, e pode continuar a ser, um lugar onde a esperança supera o medo, onde as fronteiras existem no mapa, mas não no coração.

Ser um país aberto não significa ignorar desafios; significa enfrentá-los sem perder a humanidade. E, nesta semana, Portugal, ao garantir a continuação dos direitos de agrupamento familiar aos estrangeiros que vivem em Portugal, deu um passo firme nessa direção.