José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

Portugal privilegia a cultura na comunicação com o Brasil

Secretário de Estado da Cultura foi o único represente o governo luso em evento de negócios brasileiro em Lisboa

Compartilhar matéria

O gesto é simbólico e estratégico. Ao fazer-se representar por Alberto Santos num evento brasileiro de diplomacia e negócios, Portugal assume que a cultura é o terreno mais fértil para cimentar laços, abrir diálogos e preparar pontes que depois se transformam em negócios, turismo e investimento.

No coração da Praça do Comércio, o Brasil Origem Week (BOW) transformou o Pátio da Galé numa vitrine de brasilidade, mas também num laboratório de diplomacia prática.

Foram quatro dias de intensa movimentação cultural, gastronômica e empresarial. Mais de 15 mil pessoas circularam entre exposições, showcookings, fóruns de negócios e seminários. O público experimentou moquecas, bobós e pratos que reinterpretaram a tradição brasileira, enquanto discutia temas como inovação, turismo sustentável e internacionalização de marcas.

Mas, ao lado da celebração, havia uma engrenagem política evidente: a presença de senadores como Veneziano Vital do Rêgo, Teresa Leitão e Carlos Portinho, além de empresários e instituições de peso, mostrou que o evento não era apenas festa — era palco de articulação.

Essa combinação explica por que o Brasil Origem Week se diferencia de outros eventos da diáspora brasileira em Portugal. Aqui, a cultura não foi apenas cenário, mas motor de conexões. O modelo aproxima-se do que já acontece no Fórum Jurídico de Lisboa, idealizado pelo ministro Gilmar Mendes, que ao longo dos anos se consolidou como espaço de diálogo político entre Brasil e Portugal. O BOW aplica a mesma lógica em outra chave: em vez de juristas e ministros, reúne cozinheiros, artistas, empresários e parlamentares. E, no encontro entre essas vozes, a política encontra uma via inesperada para avançar.

Com programação dedicada ao acordo entre União Europeia e Mercosul, os debates e encontros foram uma demonstração de soft power: mostrando que, ao exportar sua cultura, o Brasil projeta a imagem de um país com ambição global.

Para Portugal, a presença oficial de um dos responsáveis máximos da cultura lusa reafirma o papel de mediador privilegiado — usar a afinidade cultural como alavanca de influência junto a Bruxelas e aos mercados europeus.

Há quem veja na cultura apenas espetáculo. Mas Lisboa mostrou que, quando tratada como ativo estratégico, ela consegue mais do que entretenimento: cria confiança, aproxima sociedades e pavimenta negociações. O Brasil Origem Week foi exatamente isso — uma vitrine de sabores e ritmos, mas também um ensaio para uma cooperação mais ampla. Se o acordo do Mercosul ainda depende de negociações políticas, iniciativas como esta preparam o terreno invisível que faz toda a diferença quando chega a hora de assinar.

Tópicos