José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

Presidente de Portugal e do Brasil. Só o nome é igual.

Pesquisas eleitorais fazem com que as eleições presidenciais de Portugal e do Brasil ocupem a mesma página em jornais e televisões, mas essa proximidade diz muito pouco sobre a realidade política de cada um dos países

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Trata-se apenas de uma coincidência editorial e não política. Portugal e Brasil realizam eleições presidenciais que respondem a lógicas institucionais, regras eleitorais e expectativas sociais profundamente distintas, e é a partir dessa diferença que qualquer comparação deve começar.

Em Portugal, o Presidente da República exerce uma função institucional e moderadora. Não governa, não executa políticas públicas, não define orçamento nem conduz a economia. Suas atribuições centrais são garantir o funcionamento das instituições democráticas, promulgar ou vetar leis, dissolver o Parlamento em situações específicas e representar o Estado no plano externo. A eleição presidencial portuguesa é, portanto, uma escolha de perfil institucional, estabilidade e capacidade de mediação.

No Brasil, o Presidente acumula os papéis de chefe de Estado e chefe de governo, concentrando amplos poderes executivos. É responsável pela condução direta das políticas econômica, social e ambiental, pela nomeação de ministros e pela definição das prioridades do governo federal. A eleição presidencial brasileira tem impacto imediato sobre o cotidiano da população, o que explica o elevado grau de mobilização e polarização do processo.

Essas diferenças estruturais ajudam a entender os cenários atuais. Em Portugal onze (!) candidatos foram oficialmente validados pelo Tribunal Constitucional, o maior número da história das eleições presidenciais no país e desses, segundo as pesquisas há 5 (!!) com chance de passar à segunda volta.

Mas no país luso o voto não é obrigatório e como, nos últimos tempos Portugal vem passando por uma sequência inusual de atos eleitorais consecutivos — incluindo legislativas antecipadas, eleições europeias e autárquicas — esse contexto favorece maior dispersão de candidaturas e decisões tomadas mais tardiamente pelo eleitor. Além disso, a eleição presidencial ocorre logo no início do ano, no próximo domingo, 17 de janeiro, e não define o governo em funções, o que reduz a pressão sobre o eleitorado e amplia o espaço para indecisão, como indicam as sondagens que mostram metade do eleitorado ainda sem voto consolidado.

No Brasil, o cenário é outro. O voto é obrigatório, a eleição presidencial acontece no fim do ano e encerra um ciclo político. O peso do cargo e a centralidade do Executivo aceleram a tomada de posição do eleitor, mesmo em contextos de desgaste político. Ainda que haja múltiplas candidaturas no início do processo, o debate tende a se concentrar rapidamente em poucos nomes competitivos.

Quando feitas com cuidado, comparações entre Portugal e Brasil não servem para aproximar artificialmente realidades distintas. O que está em jogo em cada país é definido menos pelo calendário ou pela visibilidade mediática e mais pela função institucional do cargo presidencial e pelas regras que organizam a participação democrática.