Quo vadis, humanidade?
Quando existem alimentos, logística e acesso, mas uma criança continua sem comer, a fome já não é uma fatalidade. Passa a ser uma decisão política

Lembro-me da minha infância e das imagens da fome no Biafra. Depois veio a Etiópia: corpos reduzidos a ossos, olhos enormes em rostos pequenos, mães sem leite para alimentar os filhos. Eram imagens que nos diziam pertencer a um mundo atrasado, condenado pela guerra, pela pobreza e pela incapacidade de chegar a tempo.
Acreditámos que a humanidade aprenderia. Quase meio século depois da Etiópia — e mais de meio século depois do Biafra — olho para o Sudão e percebo que tudo parece continuar tragicamente no mesmo lugar.
Mudaram as câmaras. Mudaram os meios de transporte. Mudou a velocidade da informação. Podemos acompanhar uma guerra em direto, transferir milhões de dólares em segundos e enviar uma mensagem de um extremo ao outro do planeta quase sem custo. Só a fome continua imutável como uma assombração.
A imagem atingiu-me como um soco. El Obeid, no Sudão, está a tornar-se o novo epicentro de uma enorme crise de deslocamento e fome. A cidade, que tinha cerca de meio milhão de habitantes, recebeu centenas de milhares de pessoas em fuga.
Faltam água, combustível e comida. Quase 400 mil pessoas enfrentam níveis de emergência alimentar.
É aqui que começa o verdadeiro escândalo. A comida existe. Os armazéns existem. Os camiões existem. As equipas humanitárias conseguem entrar na cidade. O Programa Alimentar Mundial transporta diariamente centenas de toneladas de alimentos e afirma ter condições para ampliar a operação. O que falta é dinheiro.
No mundo do superconsumo, mais de 100 mil pessoas recebem apenas metade da comida de que necessitam. E algumas ainda dividem essa metade com famílias que não recebem absolutamente nada.
O responsável do Programa Alimentar Mundial foi inequívoco: há acesso, há capacidade de entregar os alimentos; são apenas os recursos que limitam a operação.
Quando existem alimentos, logística e acesso, mas uma criança continua sem comer, a fome já não é uma fatalidade. Passa a ser uma decisão política.
O mundo construiu uma hierarquia do sofrimento. Há vítimas capazes de mobilizar presidentes, cimeiras, emissões especiais e milhares de milhões. E há vítimas remetidas para comunicados da ONU, meia dúzia de imagens e um silêncio rapidamente substituído pela notícia seguinte.
Não é a gravidade da tragédia que determina a resposta. É o valor estratégico do país. A proximidade cultural das vítimas. A presença das câmaras. A relevância económica da região. O interesse das grandes potências.
Há guerras que têm transmissão em direto. Outras morrem fora de antena. Não se trata de retirar atenção a Gaza, à Ucrânia ou a qualquer outro lugar onde seres humanos estejam a ser esmagados pela guerra.
Como podemos aceitar que a compaixão seja uma competição entre cadáveres em horário nobre? Por que razão algumas vidas mobilizam o mundo e outras apenas alimentam estatísticas?
No Sudão, famílias que perderam tudo dividem entre si a metade de uma comida. Enquanto isso, a comunidade internacional discute prioridades, reorganiza orçamentos e publica declarações de preocupação.
É sempre a generosidade dos mais pobres que compensa a indiferença dos poderosos, e essa é uma imagem terrível — quem quase nada tem, reparte; quem tem quase tudo, continua a calcular. Onde estás, humanidade?



