José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

Salão de baile soma mais uma derrota interna a Donald Trump

Compartilhar matéria

A consultora parlamentar do Senado americano bloqueou a inclusão do salão de baile presidencial em um pacote de imigração e segurança defendido pelos republicanos. O episódio parece pequeno, mas não é. Há momentos em que uma democracia se deixa compreender precisamente naquilo que decide não construir.

Os impérios começam pela arquitetura. A frase parece excessiva até que se observe o estado emocional do Ocidente. Donald Trump queria incluir cerca de um bilhão de dólares para um novo salão de baile da Casa Branca dentro de um gigantesco pacote de segurança e imigração. A proposta acabou travada no Senado americano por resistência processual e política. O detalhe é importante. Mais importante ainda é o símbolo involuntário produzido pela cena.

Enquanto os Estados Unidos discutem fronteiras, deportações, crise migratória, inflação persistente, conflito tecnológico com a China e perda de confiança institucional, o poder apareceu associado à imagem de um grande salão cerimonial. Não é um acaso arquitetônico. É um retrato psicológico.

Toda época revela aquilo que deseja construir. As democracias liberais do pós-guerra construíram universidades, autoestradas, bibliotecas, programas científicos e sistemas públicos capazes de produzir mobilidade social. As democracias fatigadas do século XXI parecem cada vez mais fascinadas pela monumentalidade, pela imagem e pela encenação contínua do poder.

O problema não é o salão. O problema é a necessidade do salão. Existe uma mudança silenciosa em curso nas democracias contemporâneas: governar deixou de ser suficiente. Agora é preciso parecer grandioso permanentemente. A política já não compete apenas por resultados; compete por presença visual, força simbólica, circulação emocional e impacto instantâneo numa economia da atenção que destruiu a paciência coletiva para compreender complexidade. Trump percebeu isso antes de quase todos, mas não inventou o fenômeno — apenas lhe deu uma estética mais explícita.

A monumentalidade voltou ao centro da política exatamente quando as instituições começaram a perder capacidade de organizar esperança. E talvez seja esse o dado mais inquietante do episódio. Sociedades confiantes investem em estruturas invisíveis. Sociedades inseguras passam a investir em cenografia.

Não por acaso, os democratas recorreram imediatamente à comparação com Luís XIV. A imagem era eficaz porque tocava num nervo profundo da tradição ocidental: repúblicas administram limites; cortes administram espetáculo. O mais interessante, porém, não é Trump. É o Senado.

Porque ainda existem mecanismos institucionais capazes de produzir constrangimento ao excesso simbólico do poder. A consultora parlamentar que bloqueou a proposta talvez tenha impedido mais do que uma despesa. Talvez tenha impedido, ainda que temporariamente, a normalização estética de uma democracia que começa lentamente a desejar formas imperiais.

Talvez por isso o salão de baile seja tão importante. Porque políticos seguros de si constroem instituições e os cansados constroem cenários; e quando isso acontece os cidadãos já não conseguem distinguir uma sede de governo de um palco de coroação.