Tarifas Trump: 0% para todos, mil por cento para a China

Donald Trump transformou a tarifa alfandegária em míssil teleguiado e define para a China a mesma narrativa que Eisenhower e Kennedy escolheram para a União soviética nos anos da Guerra Fria. Não mais se trata de regulação comercial, balança de pagamentos ou defesa da indústria nacional. Trata-se de poder puro. De marcar território num mundo que ele julga desordenado e, por isso mesmo, pronto para ser redesenhado à sua imagem.
A mais louca semana do século termina com a imposição oficial de mais tarifas sobre os carros elétricos chineses, e a promessa velada de que, se o mundo se alinhar aos Estados Unidos — isto é, se se alinhar a Trump — terá 0% de punição, 100% de vantagens. Mas se ousar competir, especialmente se for a China, o preço será estratosférico. Em Pequim, a resposta veio na mesma moeda: tarifas elevadas para 125% sobre produtos norte-americanos.
A retórica, mais do que comercial, é quase bélica. Não se disparam mísseis. Mas disparam-se tarifas que geram impacto real: queda nas bolsas europeias, inflação projetada de 17% nos bens de consumo, fuga de capitais e volatilidade recorde no índice VIX. O Tesouro americano, por sua vez, exibe um rendimento de 4,50% nos papéis de 10 anos — sinal de que o capital busca proteção em meio ao tumulto.
Esta não é uma guerra fria ideológica como a do século 20. É uma guerra econômica de precisão, onde os alvos são cadeias produtivas, chips, carros elétricos, semicondutores e mercados de influência. Não há (ainda) uma ameaça nuclear. Mas há o risco de desestabilização global por interdependência forçada: se os países não escolhem um lado, as tarifas escolherão por eles.
É também um teste de nervos. A União Europeia hesita. O Brasil faz contas. A Índia se aproxima. A China endurece. Todos aguardam para saber se isso é só mais um round ou o começo de uma nova ordem. Para Trump, é o teatro perfeito: ele é o diretor, o ator principal e o homem que decide quem entra e quem sai de cena.
Neste contexto, o que mais assusta não é a tarifa em si, mas o silêncio estratégico de aliados históricos. A falta de uma resposta coordenada, talvez com a excepção da resposta rápida e surpreendente União Europeia — Terá Úrsula percebido o bluff? —, sugere que o mundo está pronto para se acostumar ao caos trumpista como método. E isso, talvez, seja o verdadeiro triunfo do presidente.
Porque quando a tarifa vira míssil, o silêncio vira rendição.
Visto da língua portuguesa, o novo protecionismo americano cria mais do que incerteza: tem potencial para criar divisão. Os países da lusofonia — que exportam para todos, dependem de muitos e precisam falar entre si — terão de decidir se continuarão como pontes ou se o mundo os forçará a ser uma inovadora muralha.
