José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

Trump empurra o Brasil para os braços da Europa

Medida abre brecha para que a América do Sul redesenhe alianças no cenário internacional

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Às vezes, a história anda aos tropeções. E um tropeço de Trump pode ter dado à América do Sul aquilo que ela nunca teve: protagonismo geopolítico.

A tarifa de 50% imposta ao Brasil, em um gesto de arrogância política, não apenas fere a lógica do comércio internacional — ela pode ser a faísca que reacende um acordo estrutural entre Mercosul e União Europeia.

Pela primeira vez, talvez, o Sul sente-se à mesa como igual. E a Europa, que tanto hesitou, tem agora a chance de fazer história sem parecer condescendente.

Donald Trump, ao ameaçar com uma tarifa punitiva de 50% sobre produtos brasileiros — sob a justificativa insólita de interferência no julgamento de Jair Bolsonaro — não apenas reescreve as regras do comércio, como também catalisa uma virada estratégica.

Com um só gesto, hostil e inesperado, o presidente dos Estados Unidos abre caminho para um acordo que há décadas parece condenado à estagnação: a aliança comercial entre Mercosul e União Europeia.

 

É uma ironia cruel da história: justo quando o comércio entre Brasil e EUA atingiu seu pico — US$ 24,7 bilhões no primeiro trimestre de 2025 — a política prova ser mais volátil que os números.

A interdependência, por mais sólida, não resiste ao populismo. A decisão de Trump rasga a lógica econômica e acende um alerta geopolítico. A diplomacia cedeu lugar ao improviso.

Mas é nessa dissonância entre robustez comercial e fragilidade institucional que se abre uma oportunidade histórica. A Europa, pressionada pela tensão com a Rússia e a crescente desconfiança em relação à China, precisa diversificar seus parceiros — e a América do Sul, pela primeira vez em décadas, tem uma carta forte na mão.

A punição dos EUA pode ser o empurrão necessário para que o Mercosul, historicamente hesitante, finalmente avance rumo a um pacto com Bruxelas.
Trump age por motivações políticas e pessoais, mas o efeito colateral pode ser sistêmico: ao tentar isolar o Brasil, abre uma brecha para que a América do Sul redesenhe suas alianças.

Se o Mercosul agir com inteligência e celeridade, pode transformar a agressão em ativo — e converter a dependência histórica em autonomia estratégica.
No novo xadrez mundial que se desenha, o gesto de Trump não é apenas uma jogada arriscada.

É, paradoxalmente, a melhor chance que a América do Sul já teve de ser tratada como igual. Ao castigar o Brasil, ele pode ter criado — involuntariamente — o início de uma nova ordem onde Norte e Sul, enfim, se olham de frente.