Um imperador da mídia que mudou a comunicação em Portugal
O Expresso, lançado em 1973 ainda sob a vivência da censura, foi o primeiro jornal português a usar sondagens, infográficos e editoriais independentes

Há personagens que moldam governos; e há outros, mais raros, que moldam países inteiros. Francisco Pinto Balsemão pertence à segunda categoria.
Fundador do semanário Expresso e da primeira televisão privada portuguesa, a SIC, ele não apenas transformou a mídia de seu país: modernizou a mentalidade empresarial e ajudou a consolidar uma democracia ancorada na liberdade de informação.
O Expresso, lançado em 1973 ainda sob a vivência da censura, foi o primeiro jornal português a usar sondagens, infográficos e editoriais independentes. Mesmo vigiado pela ditadura, ousou publicar o que outros calavam — e formou uma geração de jornalistas que aprenderam que informar é, antes de tudo, um ato de cidadania.
Balsemão acreditava que um jornal só poderia ser livre se fosse economicamente viável, e fundou um modelo de negócio em que ética e eficiência conviviam. O que ele fez pela imprensa portuguesa equivale, guardadas as proporções, ao que Roberto Marinho fez pela televisão brasileira.
Duas décadas depois, ao criar a SIC, Balsemão rompeu o monopólio estatal da RTP e introduziu a lógica do mercado na comunicação. Trouxe as novelas brasileiras para Portugal e, com elas, uma estética de produção moderna, próxima das emoções populares e distante do formalismo europeu. Ao mesmo tempo, criou o primeiro grande grupo privado de mídia do país — o grupo Impresa — que reunia jornal, televisão e revistas num ecossistema de conteúdo plural e financeiramente sustentável. Portugal, finalmente, entrava no século XXI da comunicação.
Mas o legado de Balsemão vai além da empresa. Ele compreendeu cedo que a informação é um capital cívico. Defendeu a liberdade de imprensa contra governos, banqueiros e ideologias. Como político, foi primeiro-ministro entre 1981 e 1983; como empresário, consolidou a SIC e o Expresso como marcas de confiança.
Quando o digital corroeu as margens e a globalização expôs os media portugueses à concorrência estrangeira, manteve o essencial: a convicção de que a independência não se negocia.
Vale lembrar que Francisco Pinto Balsemão fez das novelas brasileiras um instrumento de integração cultural e da língua portuguesa um ativo econômico global. Chamava-se a si mesmo “um intelectual atlântico”: homem de negócios, mas também de ideias, que acreditava que jornalismo e democracia são indissociáveis.
Ao morrer, em outubro de 2025, deixou mais do que empresas. Deixou um modo de pensar: que o empreendedorismo pode ser uma forma de serviço público e que o lucro, quando aliado ao conhecimento, é uma força civilizatória. Portugal perde um empresário; a lusofonia perde um arquiteto de pontes.
