José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

A década em que a língua vai decidir o mundo

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Há épocas em que a sociedade muda de língua antes de mudar de ideias. A próxima década será exatamente isso: um intervalo crítico em que a língua deixará de ser apenas meio de expressão e se tornará o motor da disputa pelo futuro.

Enquanto governos negociam fronteiras e mercados disputam algoritmos, o que realmente se altera, de forma subterrânea, silenciosa e irreversível, é a maneira como falamos, nomeamos, imaginamos e disputamos o mundo. A língua tornou-se o principal território da vida democrática. Perceber isso agora é a diferença entre reformar a casa ou permanecer dentro dela enquanto arde.

Essa língua viva, mestiça, ancestral e insurgente, feita de sobrevivências, desvios e invenções, foi recolocada no centro do debate por Silviano Santiago ao abrir o Festival Literário da Paraíba.

Do palco de João Pessoa, afirmou aquilo que muitos já intuíamos: o Brasil inventou um território linguístico que não cabe mais na velha cartografia europeia. E dezenas de escritores lusófonos, vindos de três continentes, convergiram para a mesma constatação: entrámos numa encruzilhada civilizacional.

Língua, democracia e tecnologia já não são três campos separados. Tornaram-se um único dilema: reinventamos o pacto simbólico que nos funda ou veremos a erosão lenta — mas fatal — da comunidade que acreditamos ser. A frase dita no FliParaíba “que a democracia já não está cuidando da própria democracia” não é figura retórica. É diagnóstico. Antes eram os radicais contra o sistema; agora é o sistema inteiro radicalizando-se contra o centro.

Neste cenário, a língua volta a ocupar seu lugar histórico: campo de batalha. Só que, na era da IA, a disputa ultrapassa a gramática — é uma disputa por modelos de mundo. Quando algoritmos são treinados quase exclusivamente em inglês, produzem um viés neocolonial. Quando o português brasileiro, europeu, africano, indígena, ribeirinho ou periférico vira ruído estatístico, apaga-se um património de criação, resistência e memória.

O ponto é simples e devastador: quem decidir o que é “português” na próxima década decidirá não apenas a norma de escrita — mas o padrão de humanidade que nos será permitido imaginar. As línguas indígenas, africanas e urbanas já não cabem na gaveta estreita da norma clássica. A ancestralidade, longe de ser gesto nostálgico, oferece precisamente a inteligência emocional que falta às arquiteturas da tecnologia. O futuro não será europeu nem latino-americano: será mestiço, rizomático, polifónico.

Tudo converge para um teste decisivo: seremos capazes de escrever juntos a primeira década realmente pós-colonial da língua portuguesa? Festivais como o FliParaíba deixam de ser apenas eventos; tornam-se laboratórios democráticos onde a língua — no erro, no espanto, na multiplicidade — volta a cumprir sua função primordial: criar mundos habitáveis.

Se falharmos, deixamos que outros escrevam o nosso futuro. Se acertarmos, construiremos uma língua suficientemente larga para acolher todos os que, até aqui, nunca tiveram voz — e, finalmente, teremos uma década capaz de mudar o destino do mundo.