José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

Celebrar a cura

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Na Bienal do Livro de São Paulo, em 2023, encontrei pela primeira vez Daniel Munduruku. Não era a figura solene de um intelectual distante, mas um homem de sorriso afável, olhar atento, que parecia sempre mais interessado em ouvir do que em falar. Circunstância ou destino, percebi naquele instante algo que ia além do calor da feira: havia nele a certeza tranquila de quem já ocupava, no gesto e na palavra, um espaço de legitimidade que ainda não lhe havia sido concedido oficialmente.

Dois anos depois, essa impressão se confirma. A eleição de Munduruku para a Academia Paulista de Letras não é apenas um gesto de reparação simbólica. É o início de uma cura. Durante 116 anos, a ausência indígena nas cadeiras da instituição foi uma ferida aberta, um silêncio incômodo que parecia naturalizado. Agora, enfim, esse espaço se abre à ancestralidade, à voz de quem nunca deixou de narrar o mundo.

O atraso não diminui a grandeza do momento. Pelo contrário, reforça o impacto de sua chegada. A literatura indígena não começa hoje; Munduruku já publicou mais de sessenta livros, recebeu prêmios nacionais e internacionais, atravessou fronteiras. O que muda é que, a partir de agora, sua obra passa a habitar oficialmente uma das casas mais tradicionais das letras paulistas. Isso é histórico.

A pauta não está em lamentar o tempo perdido, mas em reconhecer que há uma reparação em curso. Uma instituição que por tanto tempo se em sua própria tradição admite que não pode continuar sem refletir o pluralismo do Brasil. A cadeira que se entrega a Munduruku não é ornamento: é porta. Porta que permite que a palavra indígena deixe de ser apenas celebrada à distância e se torne constitutiva daquilo que entendemos por literatura brasileira.

É verdade: uma cadeira não resolve séculos de exclusão. Mas toda cicatrização começa por um ponto de sutura. E o ingresso de Daniel é exatamente isso — o ponto firme que ajuda a fechar uma ferida antiga. Se demorou, começou. E começar já é transformar.

O que deve ser lembrado não é o atraso, mas o gesto que anuncia reconciliação. A cicatriz não se apaga; fica como marca e lição, mas já não dói. O que doía era a ausência. O que agora se anuncia é a possibilidade de uma literatura brasileira que, ao se olhar no espelho, reconhece que não é feita apenas de brancos, urbanos e eruditos, mas também de vozes que vieram da floresta, da oralidade e da resistência.

A pauta visível, a que merece ser festejada, é esta: a dor começa a ser curada. E a cura precisa ser celebrada.