E quando os festivais começarem a falar com as árvores?
Há 20 anos, o Fliporto, em Recife, foi pioneiro ao levar a literatura para o espaço público, unir autores e leitores em diálogo direto e antecipar o encontro entre palavra, tecnologia e sustentabilidade. Muito antes de isso virar tendência

Ninguém duvida que o futuro será escrito na linguagem da tecnologia, mas todos temos receio que no caminho se perca a caligrafia da memória. Neste ponto entra a literatura, que sobreviveu a guerras, impérios e algoritmos, e hoje se prepara para o seu desafio mais profundo: continuar humana quando o mundo inteiro se torna uma artificial.
É nesse capítulo que o Fliporto 2025, que hoje começa na capital do Pernambuco, se adianta ao tempo. Ao reunir, sob o tema literatura, tecnologia, sustentabilidade, interfaces e diálogos, o festival recifense parece perguntar: como continuaremos a ler — e a nos ler — num planeta em transformação?
Os próximos festivais literários não terão apenas mesas de debate, terão ecossistemas. Serão plataformas híbridas em que escritores e cientistas, poetas e programadores, estarão lado a lado tentando decifrar o que ainda nos diferencia das máquinas.
Os palcos serão conectados por sensores, as árvores participarão da conversa pela captação de dados ambientais e o público, antes mero espectador, será parte viva da criação. O futuro da festa literária é o da inteligência coletiva: encontros que geram consciência, não só conteúdo.
A Fliporto de Recife, ao completar duas décadas, entende que a permanência depende de transformação. Foi pioneira em levar a literatura para as praças, as escolas e, mais recentemente, para o espaço digital e internacional, com sua edição em Portugal. Agora, ao incluir a sustentabilidade no centro do debate, propõe algo mais radical: a literatura como energia renovável. Um festival que fala de poesia e de carbono, de Miró da Muribeca e de inteligência artificial, de Carlos Pena Filho e do código que talvez venha a substituir a pena.
Mas há quem tema que, nesse novo cenário, o humano se dilua. Que os festivais virem experiências tecnológicas vazias de afeto, algoritmos travestidos de arte. É um risco real — e é por isso que eventos como a Fliporto são necessários. Eles lembram que não há software capaz de substituir o calor de uma voz lendo um poema, nem plataforma que simule o silêncio de uma plateia emocionada. A técnica pode amplificar a literatura, mas só a emoção pode justificá-la.
Daqui a vinte anos, talvez os eventos não sejam mais lugares físicos, mas redes vivas de pensamento e partilha. Ainda assim, haverá sempre alguém subindo a um palco, abrindo um livro e dizendo em voz alta uma frase que faz o mundo respirar melhor. Se esse gesto sobreviver — e a Fliporto está a provar que sobrevive —, então o futuro continuará a ter o som de uma página virada.



