O que aprendemos (ou não) com a história?
Democracias são como velhos navios: não afundam apenas com tempestades violentas, mas também com pequenas infiltrações

As democracias são como velhos navios: não afundam apenas com tempestades violentas, mas também com pequenas infiltrações que ninguém se dá ao trabalho de vedar.
Steven Levitsky, professor de Ciência Política em Harvard e autor do livro "Como as Democracias Morrem" — um dos principais especialistas no estudo de regimes autoritários e democracias, em sua conferência em Brasília, descreveu esse processo com clareza desconfortável: quando o Estado falha, a política hesita e a sociedade se cala, o casco começa a ceder.
A história está cheia de exemplos. Países que viveram o autoritarismo carregam cicatrizes que funcionam como sensores. A Alemanha, com a memória viva do nazismo, reagiu instantaneamente quando um plano para deportações em massa veio à tona. Espanha e Portugal conhecem a respiração curta das ditaduras e sabem o cheiro do ar quando a democracia começa a rarear. Esses lugares têm, por necessidade histórica, um instinto de defesa.
Já sociedades sem essa memória coletiva caminham no escuro. Os Estados Unidos nunca perderam sua democracia. E é exatamente por isso que muitos acreditam que ela é indestrutível. Essa confiança cega é um luxo perigoso. Quando Donald Trump tentou corroer as regras do jogo, muitos acreditaram que as instituições resistiriam sozinhas. Não resistiram. O Congresso hesitou, o Judiciário calculou, a sociedade civil permaneceu tímida. Era como se estivessem vendo água entrar pelo convés, mas convencessem a si mesmos de que o navio sempre flutuou e, portanto, sempre flutuará.
O Brasil, por outro lado — afirma o professor, apesar de sua juventude democrática e das marcas da ditadura militar, mostrou em 2022 um reflexo mais rápido. Judiciário, sistema eleitoral e parte da sociedade reagiram de forma coordenada ao assalto às instituições. Mas aqui também mora um risco: confiar demais no poder de um guardião institucional sem fortalecer a vigilância social pode criar um ponto cego. Democracias militantes — como a brasileira, com amplo poder para barrar candidatos antidemocráticos — têm a vantagem de agir rápido, mas a desvantagem de, às vezes, concentrar tanto poder que o próprio pluralismo fica ameaçado.
O que a história nos ensina, se estivermos dispostos a ouvir, é que nenhuma democracia é eterna por direito natural. Elas sobrevivem quando a memória das suas fragilidades é transmitida e atualizada. Quando entendemos que as tempestades não avisam quando virão e que as infiltrações, por menores que sejam, exigem reparos imediatos.
O perigo é claro: esquecer demais o passado ou acreditar que já o superamos completamente. O aprendizado é simples, mas difícil de praticar — e é por isso que, geração após geração, as democracias precisam reaprender a se defender.
