José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

Flip: quando a festa cresce mais do que o festival

A notícia mais importante da edição deste ano talvez não tenha sido um escritor nem um livro. Foi a revelação de que um dos maiores festivais literários do mundo começa a descobrir que o seu prestígio cultural, sozinho, já não paga a conta

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O diretor artístico da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), Mauro Munhoz, reconheceu que a redução do orçamento pode comprometer a edição de 2027. A declaração merece atenção. Não porque faltem patrocinadores interessados em cultura, mas porque obriga a fazer uma pergunta mais difícil: o que um festival literário maduro oferece hoje a quem o financia?

Durante mais de vinte anos, a Flip construiu um patrimônio cultural extraordinário. Transformou Paraty numa referência internacional, projetou autores, valorizou editoras independentes e ajudou a formar leitores. O seu sucesso foi tão grande que produziu um fenômeno raro: a cidade passou a receber uma constelação de casas, programações paralelas, marcas, editoras e instituições que utilizam a semana da Flip como o maior ponto de encontro da literatura brasileira.

O paradoxo aparece justamente aí. A programação oficial deixou de ser, muitas vezes, a principal atração da cidade. Nesta edição, uma das presenças mais aguardadas, a filósofa norte-americana Angela Davis, participou de atividades promovidas pelo Sesc, fora do palco principal da Flip. Ao mesmo tempo, a cidade registou um número recorde de casas parceiras, que passaram a disputar a atenção do público, da imprensa e dos próprios escritores.

Isso não representa um fracasso. Representa um sucesso sem modelo econômico. A Flip continua organizada como se fosse apenas um festival literário. Na prática, tornou-se uma plataforma cultural que movimenta turismo, hotelaria, gastronomia, comércio, editoras, fundações, produtoras e dezenas de patrocinadores indiretos. O valor produzido pelo ecossistema já ultrapassa, há muito tempo, o valor produzido exclusivamente pela programação central.

É aqui que entra a discussão sobre financiamento. Quem decide depender de patrocinadores precisa deixar claro qual é a proposta de valor que lhes oferece. Não basta pedir apoio para manter um palco. É preciso demonstrar impacto econômico, circulação de públicos, produção de conhecimento, posicionamento institucional e capacidade de gerar reputação para quem investe.

Curiosamente, a própria Flip parece resistir a algumas tendências contemporâneas de parceria e marketing, promovendo ações de ativação ou mesmo entregando o nome de uma marca ao seu palco principal. Como isso não acontece, o resultado é que muitos dos maiores beneficiários da marca Flip não contribuem proporcionalmente para a sustentabilidade do festival que tornou tudo isso possível.

A imagem mais simbólica desta edição está nas próprias ruas de Paraty. Enquanto se discute a necessidade de tornar os históricos paralelepípedos mais acessíveis para milhares de visitantes — que mereceu uma reclamação pública do escritor luso Valter Hugo Mãe — permanece intacto outro piso irregular: o modelo de financiamento sobre o qual caminha um dos maiores patrimônios culturais do país.

A maturidade de um festival mede-se pela qualidade dos seus escritores. Mas a sua sobrevivência depende da inteligência com que transforma prestígio cultural em valor.

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