Mia Couto, vencedor do Prêmio Camões, recomenda procurar o esquecido
Escritor moçambicano participou de conversa dedicada ao tema da cidadania da língua portuguesa

O escritor moçambicano Mia Couto, vencedor do Prêmio Camões, recomendou que voltássemos a conversar e a procurar o desconhecido. Ouvindo alguém, começamos por admitir que ainda temos alguma coisa a aprender.
Na Casa de Portugal, em São Paulo, durante uma conversa que mediei com Mia Couto, o escritor nos deixou duas recomendações: aproximarmo-nos do que desconhecemos e voltarmos a ouvir a voz uns dos outros, em vez de nos refugiarmos nas mensagens. As duas propostas encontram-se na curiosidade por aquilo que outra pessoa pode trazer à nossa vida. Quem acredita que já sabe tudo sobre alguém acaba por dispensar a conversa.
E o que acontece entre nós quando essa curiosidade desaparece? Uma conversa começa a perder-se quando julgamos conhecer a resposta antes de a outra pessoa acabar de falar. Por vezes, acompanhamos as suas palavras à procura de uma falha ou enquanto preparamos uma objeção. Ouvir exige também a disponibilidade para descobrir um erro nosso. Essa disposição faz diferença, sobretudo quando o assunto nos toca e a vontade de ter razão fala mais alto.
Com o celular, chegamos a uma situação curiosa: às vezes, parece falta de educação ligar para alguém. Primeiro, convém enviar uma mensagem perguntando se podemos falar. Há boas razões para respeitar o tempo dos outros, e as mensagens ajudam-nos a atravessar distâncias e a cuidar de quem está longe. Mas permitem também escolher o momento de responder, abandonar um assunto, contornar uma pergunta. Podemos manter o contato e, ainda assim, adiar indefinidamente uma conversa.
Quando esse controle se torna a medida de todas as relações, conversar parece exigir demasiado. É preciso acompanhar uma hesitação, suportar um silêncio, deixar que o outro altere o rumo do assunto. A conversa pode acabar num lugar diferente daquele onde pretendíamos chegar. Teremos medo disso? Talvez nos incomode a possibilidade de sair dela com menos certezas do que tínhamos ao entrar.
O convite de Mia Couto permite olhar para essa incerteza com outra disposição. Aproximarmo-nos do desconhecido pode começar pela pessoa que se senta à nossa frente. Há uma coragem discreta em perguntar por que pensa assim e escutar uma resposta que perturbe as nossas razões. Continuar a discordar depois de compreender alguém é diferente de recusar ouvi-lo porque já discordamos.
Também é possível conhecer uma pessoa há décadas e ter deixado de acompanhar quem ela se tornou. Guardamos uma opinião antiga, uma reação infeliz, uma escolha que desaprovamos, e passamos a interpretar tudo a partir daí. A certeza dá-nos o conforto de uma relação previsível. O preço pode obrigar o outro a permanecer numa versão de si que já abandonou.
Talvez parte do que hoje sentimos abalar à nossa volta comece nesta dificuldade tão próxima. Uma família, uma equipe, uma cidade precisam de pessoas capazes de continuar a falar depois de discordarem. Quando cada diferença passa a provar que a conversa é inútil, os vínculos enfraquecem e vai ficando mais difícil recuperar a confiança. Continuamos a partilhar os mesmos espaços, mas até um pequeno desacordo ameaça tornar impossível aquilo que antes conseguíamos fazer juntos.
A recomendação daquela noite cabe num gesto ao alcance de qualquer um de nós: procurar alguém e fazer uma pergunta cuja resposta ainda se desconhece. Depois, conceder-lhe tempo, sem preparar imediatamente a nossa vez de falar. A pessoa que julgávamos conhecer de cor ainda pode ter alguma coisa para nos dizer.




