José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

O Nobel também ganha

A consagração de Anne Carson reconhece uma carreira que continua a alargar a literatura, e permite pensar a idade, o lugar das mulheres e a longa espera de quem escreve em português

Compartilhar matéria

A canadense Anne Carson ganhou, aos 76 anos, o Nobel de Literatura de 2026. A Academia Sueca reconheceu uma obra que, “em diálogo com a tradição clássica, criou novas formas de escrever”. A escolha tem uma consequência que ultrapassa a biografia da premiada: ao distinguir alguém capaz de transformar uma herança antiga, o Nobel também esclarece a ideia de literatura que a própria instituição pretende defender.

Em "Autobiografia do vermelho", Carson recupera um monstro da mitologia grega e dá-lhe a vida de um rapaz que conhece o desejo e a dor. Em Nox, reúne fotografias, cartas e fragmentos num livro dedicado ao irmão morto, cujas páginas se desdobram como uma sanfona. A forma participa daquilo que procura compreender. Quem perdeu alguém reconhece a dificuldade de organizar uma ausência; Carson permite que essa dificuldade transforme o próprio livro.

Essa liberdade foi construída ao longo de décadas, entre a poesia, o ensaio e a tradução. Em 2001, tornou-se a primeira mulher a vencer o Prêmio T. S. Eliot. O Nobel chega, portanto, a uma autora com autoridade própria e uma obra que já alterava as possibilidades da escrita. O prêmio pode multiplicar os seus leitores; a escritora oferece-lhe a credibilidade de uma escolha sustentada pelo que os livros fizeram antes da cerimônia.

Aos 76 anos, Carson permite ainda separar a novidade da juventude. A experiência pode servir para arriscar mais, porque conhecer profundamente uma tradição também permite descobrir onde ela pode ser transformada. Num tempo que exige provas constantes de atualização, há alguma coisa de libertador nesta carreira: uma pessoa pode continuar a surpreender sem fingir que começou ontem.

Ser mulher acrescenta peso histórico à escolha. Carson é a 19ª mulher entre 123 laureados em Literatura, uma desproporção que convida a examinar os critérios com que se construiu a autoridade literária. A sua obra torna essa reflexão especialmente fértil: uma mulher lê os clássicos, apropria-se deles e modifica as formas pelas quais continuam a chegar ao presente. Participa da construção daquilo que todos podemos reconhecer como universal.

Para quem escreve e lê em português, o anúncio traz também uma frustração conhecida. Passaram 28 anos desde Saramago, e continuamos com um único Nobel numa língua que reúne experiências tão diferentes. Compreendo essa expectativa, partilhada entre Portugal e o Brasil e alargada aos outros países da nossa língua. Mas a contagem dos prêmios diz muito pouco, por si só, sobre a dimensão da literatura que produzimos.

Carson merece agora a curiosidade de quem ainda não a conhece, também entre nós. A sua vitória lembra que uma carreira longa pode continuar em aberto, oferecendo a leitores mais novos experiências que ainda desconhecem. O Nobel oferece-lhe uma audiência mundial; ela oferece ao Nobel uma razão para continuar a ser ouvido.

 

Acompanhe Pop nas Redes Sociais