José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

Brasileiro vivo dá nome a prêmio de humor internacional

Ganhar um prêmio internacional é a glória, mas dar nome a um é outra coisa: significa que o mundo resolveu usar você para medir os outros. Elias Thomé Saliba acaba de entrar nesse clube raro — e o Brasil talvez ainda não tenha percebido o que isso vale

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Não é piada. O historiador "Elias Thomé Saliba", da USP, passou décadas estudando o humor brasileiro. Agora, uma sociedade científica internacional decidiu criar o Elias Thomé Saliba Award. Há uma graça involuntária nisso: um homem que dedicou a vida a provar que o humor merece ser levado a sério acabou transformado, em vida, numa coisa muito séria chamada prêmio.

Mas está novidade é maior do que o próprio Saliba. Um brasileiro pode até ganhar um Nobel, um Oscar, uma medalha ou uma taça e continuar sendo um brasileiro extraordinário. Quando seu nome passa a batizar um prêmio internacional, acontece algo diferente: deixa de ser apenas vencedor possível e vira a régua.

"Paulo Freire" virou referência para a pedagogia crítica. Sérgio Vieira de Mello empresta o nome a uma distinção europeia de direitos humanos. Oscar Niemeyer tornou-se medida simbólica da arquitetura latino-americana. "Marta" com a simplicidade habitual do futebol, chegou ao ponto quase cômico de existir um prêmio com o seu nome e depois ganhá-lo. O Brasil é assim: às vezes precisa inventar a categoria para continuar campeão dela.

Agora chega Saliba. Ainda vivo, coisa inédita tirando a Marta, e por outra porta particularmente brasileira: o humor. Talvez haja poucas coisas mais nossas do que descobrir o absurdo antes que o absurdo descubra a realidade. Dias Gomes fez isso em O Bem-Amado; Millôr, Henfil e tantos outros fizeram o mesmo. O primeiro trabalho distinguido pelo novo prêmio tem, não por acaso, “o país do absurdo” no título. O Brasil fornece material empírico com tal generosidade que até hoje nenhuma agência de fomento conseguiria financiar.

Mas existe outra realidade escondida por trás da piada. Países também existem no mundo pelos nomes que transformam em patrimônio internacional. França fez isso com escritores e filósofos. Reino Unido, com universidades e cientistas. Estados Unidos transformaram artistas, empresários e instituições numa diplomacia permanente.

O Brasil possui uma coleção impressionante de embaixadores involuntários. Freire, Niemeyer, Marta, Vieira de Mello, José Aparecido e agora Saliba circulam pelo mundo mesmo quando o Brasil institucional parece chegar atrasado ao aeroporto.

É isso que melhor candidata o Brasil a paradoxo planetário: ser muito bom em internacionalizar brasileiros mas, infelizmente, um pouco menos competente em internacionalizar o Brasil.

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